O jornalismo não fala mais em nome da opinião pública

No livro “Pensar a Comunicação: Pontos de Vista para Jornalistas e Políticos“, do francês Dominique Wolton, há uma excelente reflexão sobre as mudanças que a sociedade (e, nesse bojo, o jornalismo) experimentou nas últimas décadas. E olhem que a obra é de 2005, ou seja, há mais cinco anos de mudanças desde que o pesquisador francês se debruçou sobre o assunto.

Resumidamente, para Wolton, antes a legitimidade da imprensa constituía um embate no mesmo sentido da briga por uma sociedade democrática. Nesse contexto, o jornalismo diversas vezes soube utilizar a opinião pública para conseguir o que queria do poder político. Essa etapa, diz o francês, foi vencida.

Ocorre que, agora, os atores desse processo (ou seja, nós mesmos) continuamos agindo como se estivéssemos no século passado. “Os jornalistas pensam os problemas da informação com os olhos de ontem (…), como se a relação de força com o poder político ainda fosse frágil”.

Wolton prossegue: “Os jornalistas ainda se consideram os valentes guerreiros da verdade e do combate épico da informação do século passado e ignoram as contradições ligadas a seu próprio poder”.

Podemos enumerar, como parte do problema analisado pelo pesquisador, o overload informativo (a saturação de informação), falta de profissionalismo e excesso de velocidade na produção da informação, entre outros.

A conclusão, para Wolton: no meio desse caldeirão, os jornais (e jornalistas) deixaram de ser os porta-vozes da opinião pública para comprar brigas que têm como pano de fundo apenas a manutenção de seu status.

Muito bom.

3 respostas para O jornalismo não fala mais em nome da opinião pública

  1. “Os jornalistas ainda se consideram os valentes guerreiros da verdade e do combate épico da informação do século passado e ignoram as contradições ligadas a seu próprio poder”

    observem: os Jornalistas, não (só) os donos de jornal. Assim como quem fez a psiquiatria manicomial foram os Psiquiatras, não os donos de hospícios.

    “e excesso de velocidade na produção da informação”

    Jornalismo, como a medicina, é açougue: vende notícia fresca e cadáver quente. Que a medicina trate e cure na maioria dos casos, é acidente; ela não serve pra isso, senão para dominar corpos.

    que o Jornalismo informe na maioria dos casos é igualmente um efeito colateral de sua função, que é (e sempre foi) bem outra.

    Façamos anti-jornalismo portanto. No sentido em que se diz anti-psiquiatria.

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