Arquivo do mês: maio 2010

Jornalistas ganham programa de proteção e casa de refúgio

Os jornalistas mexicanos, país onde assassinatos , agressões, ameaças e intimidações o colocam entre os mais perigosos do mundo para a gente, ganharão uma rede de proteção e uma casa para refugiar perseguidos.

A iniciativa, que envolve o governo do Distrito Federal e ONGs ligadas aos direitos humanos, chega em boa hora: nos últimos dois anos, 16 coleguinhas perderam a vida no país (muitos envolvidos em coberturas sobre o tráfico de drogas).

Aliás, hora de a gente pensar nisso no Brasil também. Temos tantos problemas quanto os mexicanos no quesito ameaça à liberdade de imprensa.

Anistia Internacional cria rede social para atormentar ditadores

A Anistia Internacional lançou uma belíssima paródia do Facebook, o Tyrannybook, rede social que tratará de incomodar (e vigiar) até agora dez presidentes considerados violadores dos diretos humanos pela instituição.

Convenhamos, num universo de 203 países no mundo, é um recorte incorreto da realidade, não? Está faltando gente aí, pô.

Mas enfim, uma boa ideia e uma pauta jornalística também: há relatos importantes e alguns links bacanas no começo das discussões _nesta rede você angaria “aliados”, não amigos.

Há de se ressaltar que a Anistia entregou a concepção do projeto a uma agência de publicidade, o que obscurece um pouco as coisas.

Em tempo: quem viu primeiro foi o Brainstorm9.

Será mesmo o fim da exatidão dos jornais?

Craig Silverman, no Columbia Journalism Review, toca na ferida da exatidão (ou precisão, como queiram) dos jornais. Parte da declaração do empreendedor Ben Elowitz, que diz ter ficado mais tempo ao telefone com checadores do que com repórteres da “velha mídia” para quem deu entrevistas.

A verdade é que a checagem de fatos é (ou era) uma instituição muito mais americana que brasileira. Silverman detecta que o investimento nessa tarefa praticamente acabou por lá _por aqui, algumas poucas revistas (como lá) ainda se dedicam ao trabalho.

A nova ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, anunciou a disposição de investigar reportagens (o que não é a mesma coisa, já que a investigação se dará após a publicação das matérias e, consequentemente, dos erros).

Ainda assim, é um passo adiante na transparência.

Em tempo: Silverman constata que o erro na grafia de nomes próprios é o maior gargalo da imprensa (e isso desde a década de 30, de quando data o primeiro estudo conhecido sobre a exatidão dos jornais).

Ele encerra o texto com um erramos ótimo do NY Times, na linha “diferentemente do que Anjelica Houston disse em entrevistada à gente, Sophia Loren está viva”.

Fiscalize a consulta pública sobre o marco regulatório da internet

Está aberta até o dia 23 a consulta pública sobre o Marco Civil Regulatório da internet no Brasil.

Importante a participação de todo mundo que usa a rede. Afinal de contas, são essas propostas que ajudarão a definir as “regras propostas para garantir direitos, determinar responsabilidades e orientar a atuação do Estado no desenvolvimento da rede mundial de computadores”, como diz o site da iniciativa.

Vem muita polêmica por aí e, como no geral esse tipo de consulta é dominada por movimentos alinhados ao atual governo, proposições absurdas de controle de conteúdo e vigilância “social” da mídia certamente entrarão de contrabando, ajudando a tornar a consulta, em princípio séria e fundamental, numa comédia pastelão.

Mais do que participar, vamos fiscalizar e denunciar a sanha de pessoas que querem limitar nossa profissão, esquecendo-se que ela já está sujeita às penas prevista pela legislação penal e cível.

Finalmente uma guerra que vale a pena

Finalmente o exército dos Estados Unidos entrou numa guerra que vale a pena: a guerra contra o uso indiscriminado de apresentações de Power Point.

Transposta para a nossa realidade (compreensão do futuro do jornalismo e o que fazer com ele na era da publicação pessoal), é uma briga bastante boa de se comprar. Também em nossa área há uma disseminação de diagramas que, muitas vezes, nada significam.

Tudo começou com o slide acima, que gerou comentário hilário de um general (“Quando nós entendermos esse slide, vamos ganhar a guerra”).

A verdade é que o general está certo. Os problemas do exército dos EUA, assim como as questões que nós jornalistas enfrentamos diariamente no desafio de desbravar uma profissão moldada pelo avanço tecnológico, não são todos explicáveis por meio de apresentações.

Lá, em algumas unidades o exército já barrou o uso desse recurso, considerando que eles nos torna “mais estúpidos”.

A refletir.

Redação ignora patrão e publica na capa notícia proibida

Essa história é maravilhosa: um amigo do dono do jornal El Tiempo, da pequeníssima cidade de Azul, na província de Buenos Aires, foi condenado a nove anos de prisão por abusar de uma menor, por um acaso sua filha adotiva.

Néstor Ronchetti, o patrão, ordenou à redação que o fato fosse ignorado. Nada feito: foi para a capa do jornal.

“Decidimos dar ao caso o mesmo tratamento que damos a todos os outros casos similares”, disse Fabián Sotes, editor do El Tiempo.

O mesmo Sotes diz que o day after da medida extrema (e absolutamente íntegra) foi “heavy”, mas que todo mundo segue trabalhando normalmente.

Uma visita ao jornal mais vendido do Brasil

Nesta semana tive o prazer de conhecer a redação do jornal mais vendido do Brasil (303.269 exemplares, em média, em março): o Super Notícia, de Belo Horizonte, para quem muito jornalista torce o nariz por puro preconceito.

Claro, o Super é um fiel representante do jornalismo que pejorativamente chamamos de popular (mas cuja procura e tiragem justificam plenamente a alcunha, não?). É um Notícias Populares de nosso tempo que nem de longe recebe a veneração de seu parente paulistano distante _e já extinto.

Com o tripé crime-futebol-mulher (e boas pitadas de serviço), o diário (que no sábado festejou 8 anos de vida colocando na capa um garoto da mesma idade nascido em 1º de maio de 2002, quase que simultaneamente ao jornal) é um exemplo da importância da edição e da sabedoria em reempacotar conteúdo.

A equipe é enxutíssima: são nove pessoas na linha de frente, sendo um editor, cinco fechadores e três repórteres funcionando num pedacinho da redação que também abriga outros jornais do grupo, como o generalista O Tempo e o semanário Jornal Pampulha.

Reaproveitar conteúdo dos outros veículos da casa é uma das chaves do sucesso da publicação, que tem uma empatia extraordinária com seu público (não são raros os casos de leitores que ligam primeiro para a redação, e só depois para a polícia).

Outro detalhe que ajuda a explicar o sucesso (além do preço, R$ 0,25, que surfa na onda de prosperidade das classes C, D e E, essas recentemente convertidas em leitores de jornal) é a estratégia de distribuição: o Super está onde você puder imaginar (supermercados, drogarias, padarias e bancas, claro).

Também há os famosos “anabolizantes”, que vão de coleções de miniaturas a camisas de futebol.

O fato é que o jornal é um fenômeno que a própria academia vem tentando entender (são diversas as teses de mestrado dissecando sua fórmula).

Um viva ao editor Rogério Maurício, com quem conversei rapidamente. E longa vida ao Super Notícia.

Agradeço ainda às acolhidas calorosas de Luiz Tito, vice-presidente do grupo Sada (que edita os jornais mineiros citados), Lúcia Castro, editora executiva, e Michele Borges, secretária de redação.

Privacidade na web: que tal a gente no comando?

“Eu quero ter a possibilidade de controlar, publicar e estabelecer o sistema de acesso e as regras para o uso da minha odentidade on-line, permitindo a Facebook, Twitter, Linkedin, a qualquer um, acessá-la de acordo com as minhas regras”.

Assim falou Jeff Jarvis, numa atualizada análise sobre o estado da privacidade na internet, hoje o maior gargalo da rede.

Enganado por agência de notícias, fotógrafo ainda é processado por difamação


Estava na cara que um dia isso acontecer: um fotógrafo está processando a AFP (Agence France Presse) porque a empresa se apropriou de uma imagem postada por ele no Twitter.

A foto em questão foi tirada por Daniel Morel (ele próprio ex-empregado da agência de notícias francesa) durante o terremoto do Haiti.

Redistribuída posteriormente pela AFP, perdeu o crédito de seu autor original _uma constante em colaborações do jornalismo participativo, repare como as agências rapidamente incorporam seus créditos e tiram o cidadão da frente  o quanto antes.

Morel, que tinha acesso a um mailing de assinantes da AFP, disparou um e-mail protestando contra a tungada que levou. Extraordinariamente, o feitiço virou contra o feiticeiro: agora a agência também o está processando, por difamação e danos morais.

Na defesa da companhia francesa, letrinhas miúdas do Twitter que eu reproduzo, na íntegra e em inglês, abaixo.

“(…) submitting, posting or displaying Content on or through the Services, you grant us a worldwide, non-exclusive, royalty-free license (with the right to sublicense) to use, copy, reproduce, process, adapt, modify, publish, transmit, display and distribute such Content in any and all media or distribution methods (now known or later developed)”.

Você já tinha lido isso em seu contrato com o Twitter? Pois é, basicamente o trecho diz que, publicado, um post não mais o pertence: você dá ao mundo o direito de usar aquilo do jeito que bem entender.

Só agora entendi porque Morel limpou seu Twitter poucas horas depois de divulgar essa imagem. Estava se desenhando uma história bizarra de apropriação indevida que, aparentemente, tem o suporte da plataforma tecnológica.

Mas nada que a boa e velha justiça analógica não resolva.

Novas mídias exigem uma nova ética para o jornalismo?

Um simpósio realizado na sexta-feira pela Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, debateu uma questão interessante: novos tipos de mídia exigem novos padrões éticos?

Sempre fui do time de Cláudio Abramo: a ética do jornalista é a ética do marceneiro, ou seja, nossos valores morais e éticos não podem ser diferentes dos de um profissional qualquer.

“O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer?”, pergunta Abramo. É bem por aí.

Em janeiro, a universidade já havia realizado outro encontro para discutir parâmetros éticos para as novas redações investigativas (em PDF) _com especial cuidado aos projetos sem fins lucrativos e/ou financiados pelo público.

Esse fenômeno é basicamente americano e, aí sim, pode representar um desafio à ética profissional no instante em que interesses outros que não os meramente jornalísticos poderiam estar por trás de pautas bancadas por doações.

Outra questão: em geral, os “patrões” neste modelo de jornalismo costumam ser os próprias jornalistas que produzem o conteúdo, uma integração perigosa entre funções que, estamos acostumados com isso, funcionam bem melhor em lados separados e bem distantes do front.

Obrigatório voltar a tema em breve.