Arquivo do mês: abril 2010

Dois jornalistas visuais que você não conhece, mas deveria

Emprestei o título do Multimedia Shooter, que tantas vezes já nos deu boas dicas, porque realmente o trabalho de Daniel Mercadante e Maise Crow merece atenção.

Na verdade, acho que só vendo: a fotógrafa e pesquisadora mescla imagens novas e antigas em ótimos slideshows. Mercadante é adepto do vídeo como arma para se contar uma história.

A Life Alone e Everynone estão, disparado, entre alguns dos melhores trabalhos que vi neste ano.

Desfrute.

Twitter fracassa como agregador de audiência na Inglaterra

Um levantamento entre os dez principais veículos jornalísticos on-line da Inglaterra transmite uma sensação estranha sobre o Twitter: o maior site de microblog (e a rede social talhada para o compartilhamento de notícias) não representa nem 1% do total de audiência deles.

Assim como o Facebook, o Twitter figura, claro, entre as 25 principais portas da entrada da audiência nas páginas britânicas analisadas, mas sem o protagonismo que a gente imaginava _no Brasil, dados supõem ser bem maior a influência dos sites de redes sociais no tráfego das páginas jornalísticas (em breve trarei aqui um resumo sobre o tema).

O Google (sempre ele) é a primeira fonte de tráfego em boa parte dos veículos britânicos analisados no levantamento. Na média, 45% dos acessos são genuínos, ou seja, partem de gente que vai diretamente aos sites, sem passar por intermediários. Interessante.

A subversão da ordem cronológica reversa

Já faz muito tempo, mas eu esqueço de comentar: a versão eletrônica da coluna Radar, da revista Veja, vem subvertendo com frequência o conceito da ordem cronológica reversa, um dos aspectos que nos ajudam a definir operacionalmente um blog.

Explico, mas é só olhar a imagem acima para entender: notas que se complementam são publicadas invertidas, ou seja, primeiro é colocada no ar sua continuação para, invariavelmente no minuto seguinte, ser postada a abertura _que contextualiza a notícia, claro.

Esse aparente sem-pé-nem-cabeça-jornalístico serve a um único propósito: fazer com que, no ar, as notas se apresentem como se estivessem em sequência, num modus operandi absolutamente impresso _e que jamais deveria ser transposto a uma plataforma eletrônica com tal característica.

São as apropriações equivocadas de que eu tanto falo, mas para parecer de vanguarda, a grande mídia mete os pés pelas mãos.

Se a linguagem da coluna Radar _leitura semanal obrigatória para se acompanhar o panorama político e econômico do país_ exige, na web, notas continuadas como exibe em papel, não é num blog que esse processo vai se concretizar sem um ruído desagradável.

Se o que se quer é continuar tendo uma coluna, para que então criar um blog? E ainda por cima, caso da Radar, sem um único hiperlink?

Cada vez mais blogueiros se autointitulam jornalistas

Já falamos várias vezes aqui que blog e jornalismo não são a mesma a coisa. Claro, há blogs jornalísticos, mas o simples ato de blogar não significa que se está desempenhando a profissão.

Na semana passada saiu uma pesquisa nos EUA segundo a qual 52% dos blogueiros se consideram jornalistas (um impressionante incremento com relação ao mesmo levantamento de um ano antes, cuja resposta positiva a essa pergunta bateu em 33%). Sem conhecer o conteúdo destes blogs, fica difícil dizer se o pessoal está viajando.

Mas é evidente, e como eu sempre digo, que a tarefa de apurar/analisar/difundir informação é direito fundamental da pessoa. Logo, talvez em algum momento mesmo um blogueiro que conduza um diário pessoal clássico faça jornalismo.

Sempre vai depender do conteúdo.

Por que divulgar nomes de envolvidos em crimes?

Qual a utilidade de se divulgar nomes de envolvidos em crimes ou vítimas deles? A não ser que sejam pessoas realmente de interesse público, nenhum _quem guardaria o RG de zé manés, e para que? Crime é crime, importam predicados, mais que sujeitos (com a exceção acima descrita). E aqui vai um comentário que extrapola a idade do infrator.

A Associated Press _agência noticiosa que desde 1848 é bancada por um grupo de jornais e emissoras de rádio e TV dos EUA_ proibiu recentemente, em seus despachos, a divulgação dos nomes de menores de 18 anos “testemunhas ou acusados de crimes”, além de pessoas que digam terem sido vítimas de ataque sexual.

Isso já é lei que fará 20 anos no Brasil em julho (ao menos no que se refere aos menores).

Doug Fisher, num bom post, questiona a funcionalidade e a possibilidade de colocar a medida em prática em escala global, como pretende (corretamente) a AP.

Universidade dos EUA segue sugestão de Tim Berners-Lee e cria curso para estudar a web

Este ano, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Tim Berners-Lee (o pai da criança) exortou a necessidade da criação de uma disciplina acadêmica inter-relacionada basicamente com tecnologia, psicologia e antropologia para estudar a web.

Pois agora uma universidade americana anunciou a criação do curso, como nos explica Jeff Jarvis, professor da Universidade de Nova York.

As forçadas de um telejornal no meio do feriado

Feriado é aquela seca de notícias, mas na quinta-feira o Jornal Nacional exagerou: primeiro, colocou no ar uma reportagem capitaneada por Pedro Bassan, de Lisboa, dando conta de que os remédios custam muito mais caro no Brasil do que em Portugal (o título era “A cada R$ 3 pagos em remédio, R$ 1 é de imposto“, com um suposto levantamento dos preços de medicamentos em 23 países).

Só que forçaram a mão. Primeiro: o princípio ativo Captopril, para controlar a pressão alta, não tem preço médio de R$ 44, como a reportagem vendeu. Pode até ser que esse valor seja cobrado em alguma parte, mas é pura ladroeira. Fora que a matéria em nenhum momento citou o Farmácia Popular, programa do governo federal que faz alguns remédios (como vários de pressão) custarem na casa de um dígito e alguns centavos.

Tinha mais: “Fique atento se seu cartão vencer num feriado” relatava cuidados com a data de vencimento nos feriados. O alerta, falso, era o de que deixar para pagar depois do vencimento transformaria a conta em multa. O personagem, uma vítima de erro e de cobrança abusiva, que após ter protestado _é claro, afinal de contas se os bancos não abrem, não há como pagar contas_ teve o valor cobrado a mais estornado.

Pior é que a melhor história do dia não entrou no JN (vi no Brasil TV, o SPTV de quem não tem praça fixa de televisão): moradores de dois barros de Contagem (MG) são obrigados a encarar quase 1h30 de ônibus para buscar a correspondência numa central dos Correios. Contagem, diga-se, tem quase 700 mil habitantes e é o segundo maior município mineiro.

Calma com o andor, minha gente.

A integração de redações no Estado e na Folha

Na semana passada a peruana Esther Vargas, do bom blog Clases de Periodismo, esteve por São Paulo e visitou Folha e Estadão.

Pela Folha, a recebi e contei algo do que pretendemos fazer nas eleições e alguns detalhes da integração de redações..

No Estadão, foi Pedro Doria em pessoa (o editor-chefe de conteúdos digitais) quem relatou o processo por lá.

A ler.

Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]“, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.