Arquivo do mês: março 2010

‘O jornalista está perdendo cada vez mais o valor’

Alfredo Relaño, diretor do diário esportivo AS, faz declarações importantes nesta entrevista ao povo de jornalismo da Universidade Europeia de Madri. Entre elas, que “o jornalista está perdendo cada vez mais valor”.

Essa é uma verdade irrefutável da profissão, mas que saída da boca de um veterano repórter, ganha outra conotação. O exemplo dele é direto: “No meu tempo tinha muito menos jornalistas. Num treino do Real Madrid éramos dois, hoje esse número pode chegar a 80″. A conclusão, inevitável: “Aumentou a distância entre o jornalista e o protagonista da notícia”.

Não peguei o tempo de dois (a não ser no Diário do Grande ABC, quando, entre outros, fui setorista de São Bernardo e São Caetano), mas fui bem anterior aos 80. Afora o processo de pasteurização da cobertura (e isso se aplica a todas as editorias, não só ao esporte), houve um distanciamento natural entre entrevistador e entrevistado por conta do próprio avanço tecnológico.

Hoje, todo mundo publica, e não precisa da mediação de um veículo jornalístico para dar seu recado.

O YouTube dá dinheiro?

É a pergunta do milhão: o YouTube dá dinheiro? Juan Varela, nesta belíssima análise, atesta que não. Com a ressalva de que os dados são, em boa medida, estimativas de um estudo, ele mostra que o site de compartilhamento de vídeos movimenta dinheiro compatível com uma rede de TV europeia (US$ 727 milhões).

Isso significa pouca coisa se lembrarmos que armazenar dados, como faz o Youtube, custa bem mais caro que operar uma emissora de TV comercial _ou você acha que banda nasce em árvores?

Só no ano passado, o Google perdeu quase US$ 500 milhões com o site de compartilhamento de vídeos, mas é promissor o acréscimo de usuários e de vídeos vistos, todos eles devidamente monetizados com publicidade.

Mesmo assim, o estudo prevê que serão necessários pelo menos oito anos de bons resultados para o Google recupere os US$ 1,65 bilhão que colocou no negócio.

Programa de rádio brasileiro está há 74 anos no ar

O programa Hora do Fazendeiro, uma espécie de Globo Rural do rádio, completa 74 anos de transmissão ininterrupta neste ano. Sempre pela Inconfidência AM, emissora pública de Minas Gerais, discorre sobre serviços, meteorologia, cotação de produtos agrícolas, gastronomia e música.

É razoável supor que se trata do programa jornalístico de maior longevidade no Brasil _sua primeira edição foi ao ar em 7 de setembro de 1936, dias após a fundação da emissora. Há quem diga que o recorde de resistência é mundial.

Não há rastro do programa na web: ou seja, ele sobreviveu esse tempo todo trafegando apenas em sua plataforma original, o rádio, aprimorando seus conceitos ao lado dos ouvintes. É um exemplo vivo da teoria da Tábula Rasa, de Locke.

Acertando e errando, o programa está aí, alheio a toda essa movimentação tecnológica que transforma a mídia. Bom ter esse tipo de coisa aparentemente imutável para se contrapor ao cenário constante de mudança. Nem tudo que muda demais é bom o bastante.

Nova York credencia jornalistas ‘eventuais’

A decisão do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, de credenciar jornalistas independentes para ingressar em repartições e eventos promovidos sob a tutela do município é excelente do ponto de vista de democratização da informação.

Abrir portas para iniciativas individuais é reconhecer que o ato de apurar/analisar/difundir informação é direito fundamental da pessoa, um velho mantra deste site.

A credencial de NY tem uma condição: o postulante precisa provar que cobriu, nos últimos dois anos, ao menos seis eventos. Ou seja, tem de ter a partir de 730 dias de sanha jornalística nas veia (apesar de, na média, a exigência corresponder a três por coberturas por ano _um luxo para quem camela nas redações).

No meio acadêmico brasileiro, já houve quem levantasse a voz questionando o porquê de blogueiros receberem o “status de profissionais diplomados”.

Eu sigo questionando por que motivo um diplomado em jornalismo é, necessariamente, melhor do que uma pessoa qualquer relatando/analisando/apurando um acontecimento.

Não há embate entre blog e jornalismo, entre on-line e jornalismo, entre cidadão e jornalismo. Jornalismo todos nós fazemos todos os dias, e desde sempre. As facilidades trazidas pela tecnologia é que evidenciaram esse processo.

Magnum vende acervo para sobreviver (mas com a cabeça que a levou à ruína)

Aula de história: o desembarque das tropas aliadas na Normandia, no Dia D, numa tomada de Robert Capa

A Magnum, durante anos meca do fotojornalismo e que abrigou, em suas fileiras, nomes como Henri Cartier-Bresson e Robert Capa, vendeu seu arquivo para um bilionário americano que pretende vê-lo exposto na Universidade do Texas. São 200 mil positivos que custaram, estima-se, pelo menos US$ 100 milhões.

Pouco se falou sobre a motivação da negociação de tão valioso conjunto de fotos: a revolução digital quebrou a Magnum. Nascida e criada num mundo onde competia-se para ver quem gastava mais dinheiro numa pauta, a Magnum sucumbiu à oferta abundante de registros jornalísticos nos lugares mais remotos. Perdeu seu nicho para a colaboração em rede.

Com o capital extra, a Magnum enxergou uma chance de sobreviver. E eu pergunto como, se ainda acha que jornalismo é uma disputa pelo maior orçamento.

Eles não sabem o que dizem: jornalismo é uma disputa pelo seu quarteirão.

Pesquisas escancaram mudança no modus operandi jornalístico

O Newspaper Death Watch chama a atenção para o fato de que três pesquisas quase simultâneas sinalizem claramente mudanças profundas no modus operandi jornalístico tradicional.

Apesar de serem 100% americanas, todas trazem dados que provavelmente, transpostos a um cenário global, corresponderiam à realidade.

A primeira aponta que sete em dez jornalistas estão usando sites de redes sociais para apuração e reportagem, 28% a mais do que aferido no ano passado.

Na mesma linha de mídia alternativa e jornalismo cidadão, outra sondagem descobriu que 90% dos jornalistas consultam blogs para procurar pautas.

A última, no nicho do “sei como se faz linguiça“, indica que 59% dos sites de revistas generalistas dos Estados Unidos estão na categoria “não são editadas e suas informações checadas como se faz na edição impressa” ou simplesmente “não são editadas nem checadas”.

Vamos denegrir a mídia?

Bom saber que existem ONGs como o Instituto Mídia Étnica, dedicada, segundo ela própria, a realizar “projetos para assegurar o direito humano à comunicação e ao uso das ferramentas tecnológicas, especialmente para a comunidade afrobrasileira”.

No jornalismo, como de resto em toda atividade humana, a diversidade é fundamental para garantir o objetivo ainda maior, que é a pluralidade.

“Vamos denegrir a mídia”, diz o slogan do instituto, que promete “advocacy para diversidade na mídia, assessoria para organizações afro-brasileiras e media training para lideranças de movimentos sociais”.

Há também iniciativas semelhantes que tentam incluir indígenas, mas como somos uma coleção de raças, falta muito pra chegar nessa tão sonhada mídia étnica.

Aliás, diversidade na mídia se garante com inclusão digital. Hoje, todos somos a mídia. Basta ter acesso às plataformas adequadas, cada um tem a sua imprensa pessoal.

Visto por esse ângulo, o caminho é bem menos árduo.

Juiz aponta arma para fotógrafo (e vira capa de revista)

O fotógrafo Carlos Saavedra, da prestigiosa revista semanal de informação Caretas, ganhou na loteria: escalado para seguir os passos do juiz Raúl Rosales Mora (protagonista de uma polêmica decisão), se viu sob a mira de uma pistola apontada pelo próprio personagem da matéria. Que, claro, virou a capa.

“Cuidado com o que você anda fazendo”, ameaçou Rosales, que em fevereiro autorizou a nomeação de um magistrado no Tribunal Constitucional (a suprema corte peruana) intensamente relacionado com aliados de Vladimiro Montesinos.

Braço direito do presidente Alberto Fujimori, Montesinos foi filmado subornando um político de oposição, o que desatou uma crise política que culminou com a renúncia do mandatário, sua posterior fuga ao Japão, e a prisão no Chile, durante uma viagem anos depois. Hoje, Fujimori e Montesinos (que fugiu para a Venezuela mas foi extraditado, não sem antes criar um incidente diplomático entre os dois países), estão presos.

Também foi da Caretas o flagra, em junho de 2007, do almoço festivo com Javier Ríos Castillo e a patota de Montesinos. Ríos Castillo festejava, um dia antes da votação no Congresso, sua escolha para o Tribunal Constitucional, o que realmente se confirmou no dia seguinte.

O escândalo obrigou o parlamento a rever a nomeação, e desde então Ríos Castillo batalhava na Justiça por seu cargo, que ele considera “legítimo”. Rosales lhe deu ganho de causa, mas ainda há recurso.

Mas o que o juiz tresloucado deu mesmo foi uma belíssima capa. E a lição de que sempre vale a pena seguir quem tem culpa no cartório. Esse povo se entrega fácil, fácil.

Jornalistas ou filhinhos de papai?

Grande texto do espanhol El Mundo, que já tem mais de mês, sobre o momento em que jornalistas foram expulsos do aeroporto de Porto Príncipe pós-terremoto. E revelaram seus medos sem a tutela norte-americana no cenário de putrefação e catástrofe.

¿Puede un periodista ponerse a llorar cagado de miedo nada más poner un pie en Puerto Príncipe al verse rodeado de negros? Sí.

O correspondente Jacobo G. García fala mais: diz que “muitos jornalistas preferem viver debaixo da asa de uma organização qualquer do que enfrentar sozinhos uma cidade destroçada e desconhecida”.

E termina com um grande texto de Arturo Pérez Reverte, ele próprio correspondente de conflito/catástrofe, contando sobre a vez em que foi dado como desaparecido por sua redação na fronteira entre Sudão e Etiópia.

“En realidad fueron mi redactor jefe, Paco Cercadillo, y mis compañeros del diario ‘Pueblo’ los que me dieron como tal; pues yo sabía perfectamente dónde estaba: con la guerrilla eritrea.”

Esse entendimento do jornalismo como uma tarefa a destemidos vem de longa data.

O cara que errou todas as previsões sobre a internet

Descobri um ancestral de Andrew Keen, ex-enfant terrible da web e seu maior crítico da atualidade (mas que cansou e, em boa medida, aderiu ao que criticava).

Trata-se do astrônomo Clifford Stoll, autor do livro Silicon Snake Oil, que em 1995 destruía a web com observações do tipo “o e-commerce é uma bobagem e jamais vai funcionar” ou “nenhuma base de dados on-line vai substituir o jornal diário”.

É simplesmente imperdível o artigo que publicou no mesmo ano na Newsweek apresentando suas ideias. Uma coleção de coisas que se concretizariam mediante os olhos do cético Stoll.

“Agora Nicholas Negroponte, diretor do laboratório de mídia do MIT, prevê que logo compraremos livros e jornais diretamente na internet. Uh, claro”, hahahhahha, sensacional.