Arquivo do mês: março 2010

Centenas de documentários, de graça e sem cadastro, estão disponíveis on-line

Essa dica do Novo em Folha é absolutamente sensacional: centenas de documentários (esse fantástico suporte para a narrativa jornalística e a reconstrução de uma história) absolutamente de graça, ao alcance de um clique, sem cadastros ou outras “bullshitteries”, como eu adoro dizer.

Eu vou passar uma boa parte do domingo explorando esse acervo… E você?

Um exemplo de jornalismo corajoso e ousado que já tem 71 anos

O jornalismo, por definição, precisa de ousadia para chocar e mostrar a realidade às pessoas. Vamos recuar muito no tempo para encontrar um belíssimo exemplo disso, como bem lembrou o amigo Wagner Belmonte, meu duplo colega. Pois bem: a revista Time elegeu em 1938 como “Homem do Ano” ninguém menos que Adolf Hitler.

“Para o bem ou para o mal”, como expressou Henry Luce, fundador da prestigiosa revista, na edição que mostra, em sua capa, uma ilustração do Führer tocando órgão numa catedral enquanto suas vítimas são representadas numa espécie de roda da morte onde são açoitadas.

A imagem, por si só, é chocante, ainda mais em 1939. Mas a decisão de apontar Hitler como o personagem que mais tinha influenciado o ano anterior (a escolha foi revelada na edição de 2 de janeiro do ano seguinte) impacta pela coragem em boa medida fruto de um tempo em que ainda não havia a irritante patrulha do politicamente correto.

Hoje qualquer tipo de eleição jornalística premia o bem, como se o mal não existisse, e provocaria uma reação de nojo e revolta se, por um acaso, se decidisse realçar alguém que foi personagem central por sua coleção de maldades.

Ao mesmo tempo, a brilhante opção da Time há 71 anos foi um tapa na cara dos políticos de diversas nações, incapazes de lidar com a fúria expansionista (e assassina) do chanceler alemão. Além disso, antecipou o que parecia inevitável, mas ainda não estava claro _a Segunda Guerra Mundial começaria exatos oito meses desta capa histórica.

Um brinde ao jornalismo ousado e corajoso.

Recauchutada, velha mídia triunfa em relatório sobre o estado do jornalismo

O State of the Media, relatório do Project For Excellence In Journalism que anualmente disseca a atividade jornalística em todos os suportes nos Estados Unidos, veio este ano com algumas informações surpreendentes _ou nem tanto, mas que confirmam suposições empíricas com as quais íamos tocando nossa atividade.

Uma delas é o triunfo da análise/opinião: nos EUA, a noção de que o jornalismo está naufragando é uma falácia. Os gêneros meramente informativos, esses sim, estão ocupando menos espaço onde quer que seja, mas comentários e sua repercussão estão mais em alta do que nunca.

É a receita submetida aos jornais impressos mesmo em países emergentes, assombrados com o encolhimento do negócio no hemisfério norte _região do globo em que há muito menos gente recém-ingressada na sociedade de consumo, e logo, com um mercado bem mais restrito para expansão.

Por aqui (como na Índia, por exemplo), percebeu-se antes _muito em função da derrocada do negócio impresso em áreas mais desenvolvidas_ que era melhor desenvolver estratégias de contextualização e opinião. Não por acaso colunistas são frequentemente os abres de página dos periódicos brasileiros.

Outra conclusão do documento: o futuro da nova e da velha mídia estão mais entrelaçados do que muitos costumam pensar. Isso me remete à frase “o jornal vai dormir internet; a internet acorda jornal” com a qual defini, em 2006, a interdependência e complementariedade entre essas duas mídias.

Mais: em relevância, números absolutos e qualquer tipo de recorte, é ao mainstream que o público ainda recorre em sua maioria. Finalmente: a tecnologia tem o poder de mudar o foco da notícia mediante sua capacidade de ditar os ângulos da cobertura de um acontecimento. Enfim, muita coisa pra gente refletir.

Comentário de leitor vira pretexto para controle da web na Venezuela

A censura cibernética, com um batalhão de “espiões” que perscrutam a web e eliminam ou bloqueiam conteúdo indesejado (como ocorre na China e no Irã), não parece ser suficiente para ameaçar a liberdade na internet.

Na Venezuela, país há muito afastado dos princípios democráticos, um comentário de leitor num portal de notícias foi usado como pretexto para a criação de uma comissão para controlar a web.

“Os meios de comunicação devem contribuir para a formação do cidadão e paz pública” é o trecho da Constituição citado pela Câmara para justificar a decisão.

O pepino foi a publicação da (falsa) informação da morte do ministro de Obras Públicas e Habitação, Diosdado Cabello, e do apresentador de TV Mario Silva. Tudo numa caixa de comentários que, algum tempo depois, foi moderada _a mensagem foi excluída, e seu autor suspenso permanentemente.

Subjetiva, a decisão do Parlamento fala em “punir quem não cumpra a lei”, e pede que se investigue os sites que usem de forma “indevida e antiética” a web.

Mais um passo para ameaçar a liberdade de expressão.

Você sempre quis ter um jornal? A hora é essa

Tem louco pra tudo: na Inglaterra, o Newspaper Club oferece a possibilidade de imprimir seu próprio jornal a um custo bastante reduzido (364 euros por 300 cópias).

Poderíamos identificar aí um nicho interessante para o jornalista: produzir edições direcionadas a eventos tão diversos quanto casamentos, shows de rock, espetáculos esportivos.

A ideia parece boa, mas se encaixa só em produtos gratuitos _que exigem uma belíssima estratégia de venda de publicidade para prosperar.

Logo, de volta à estaca zero.

Agregadores na berlinda: de novo, o medo dos grupos de mídia

Afinal de contas, o que é um agregador de notícias senão uma forma de promover e facilitar o acesso a conteúdo jornalístico?

As empresas de comunicação, sempre atrasadas, insistem na tese que de ferramentas como o Google News estão usurpando seus produtos _quando a verdade é que a excelência de um buscador como o desenvolvido pelo Google está justamente criando mais oportunidades para que esse mesmo conteúdo seja visto em sua fonte original.

Não que o Google seja um santo, claro. O simplismo de um diretor da empresa ao comentar a polêmica é reveladora. Afinal, a companhia também se beneficia _no mínimo com pageviews_ da função de agregar conteúdo alheio.

“O Google News não é uma fonte de negócios e, portanto, não há faturamento para dividir com os meios de comunicação. O grande benefício não é apenas para os usuários, mas também para a mídia, que consegue muito mais audiência graças ao trabalho de nosso buscador”, diz Luis Collado, big head do Google na Espanha (onde a companhia realiza 90% das operações de busca _no mundo, essa taxa cai para 66%).

É discussão pra mais de metro, mas nessa, com todos poréns, novamente estou contra os grupos de mídia, que se desesperam ao ver oportunidades criadas totalmente a sua revelia. E, pior, combatem ideias que podem ajudar seus negócios.

Miniportal multimídia e convergente demonstra e testa o poder da web

A World Wide Web festejou no sábado 21 anos _sua maioridade, digamos.

Para não deixar passar a data em branco, vale recomendar o miniportal multimídia e convergente que a BBC preparou, não exatamente como um registro da data, mas para aproveitar o gancho.

Nele, todas as plataformas foram utilizadas (rádio, TV e internet) para contar, pelas próximas duas semanas, a incrível aventura que inscreveu definitivamente os nomes de Tim Berners-Lee e Robert Cailliau na história de humanidade.

Dá pra perder, fácil, algumas horas navegando pelas páginas do Superpower, o produto da BBC. Como a brilhante seção on/off, no qual uma comunidade nigeriana e duas famílias coreanas trocam de papel: uma ingressa na web pela primeira vez, enquanto as outras são obrigadas a viver sem a rede. O objetivo é medir, de uma forma prática, o poder da internet. Uma pauta (mais do que isso, uma experiência) realmente instigante, daquelas que dá vontade de copiar.

Google de Lula não resiste à primeira busca

Hoje reproduzo texto que publiquei sexta-feira, na Folha de S.Paulo, sobre a reformulação do Portal Brasil _honesta até o momento em que o presidente Lula chamou a página de “Google brasileiro”. Aí não dá, jornalisticamente, para deixar uma oportunidade dessas passar.

A ausência de contextualização sobre o que dizem os personagens do noticiário ainda é, na minha opinião, um dos problemas mais graves do jornalismo brasileiro.

Bom domingo.

“Imagine se o Google fizesse buscas apenas dentro de si, apresentando como resultados unicamente ocorrências em sites próprios que detalham as funcionalidades dos mais de 150 produtos ou aplicativos da companhia. Pois é exatamente isso que o Portal Brasil, chamado pelo presidente Lula de “Google brasileiro”, faz.

A comparação é descabida e não resiste à primeira busca, item em que o Google (o de verdade) construiu a sua sólida reputação de excelência. Como explicar que o Flamengo, time de futebol mais popular do país, tenha só duas incidências no Portal Brasil, enquanto o PAC tinha, até ontem, 298?

Fácil: o portal é, no máximo, um Google do governo do Brasil (ou o “espaço institucional do Estado brasileiro na internet”, como se apresenta) e não tem a extensão que a já conhecida megalomania presidencial tentou conferir à página.

A própria busca dentro do site público nada tem a ver com a eficiência da empresa que revolucionou o conceito de busca com um algoritmo que leva em conta a inteligência coletiva.

É o que supõem as parcas 94 vezes em que o nome de Lula surge ao se fazer uma busca simples no portal -dotado em boa parte de material oficial produzido pela Agência Brasil, que cobre fartamente as atividades diárias do presidente.

“Por exemplo, se um cidadão qualquer do Chuí ou do Oiapoque quiser saber sobre cultura, saber sobre Portinari, sobre Di Cavalcanti, ele vai entrar no portal e vai ver os quadros, as pinturas desses grandes artistas brasileiros”, disse Lula na segunda, no programa “Café com o Presidente”.

Se o mesmo cidadão quiser se informar sobre Ariano Suassuna, importante dramaturgo popular brasileiro, porém, terá de procurar outra fonte.

No Portal Brasil, o que surge é o indefectível “não foram encontrados resultados”. E, para usar o exemplo de Lula, há sites sobre Di Cavalcanti e Portinari com muito mais substância.

As maiores críticas à página chapa-branca até agora dizem respeito apenas à sua instabilidade. Pudera: desde que foi lançado, na quarta passada, o portal passou ao menos três dias fora do ar, o que é natural diante da migração de conteúdo de mais de uma centena de sites e inclusão de elementos multimídia que não existiam.

O que não é normal é que “novas demandas de ajustes de configuração”, conforme a justificativa oficial da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República, responsável pelo produto), tenham sido detectadas após um ano, 200 profissionais e R$ 11 milhões empenhados na tarefa.

Esses números são muito superiores aos de qualquer reforma técnica de um grande portal comercial, como o UOL (quarto endereço mais acessado do Brasil, segundo a empresa de auditoria on-line Alexa). A URL brasil.gov.br, que hospeda o portal de Lula, ocupa apenas a 3.298ª posição no mesmo ranking de acessos.”

O futuro do dinheiro: sua carteira nunca mais vai ser a mesma

Não sei se é generalizado, mas eu, ao menos, sempre tive o sonho de poder sacar dinheiro no computador de casa, ou no meu notebook em qualquer lugar. Talvez seja a última coisa que a tecnologia nos falta regalar.

A Wired trouxe outro dia uma bela pauta/matéria sobre o futuro do dinheiro. “Flexível, sem atrito e (quase) de graça”, diz o título. Ainda sem as notinhas saindo pelo teu drive de DVD, mas vá lá.

Não, não vou resumir o texto: ele merece ser apreciado com calma (é grande, mas vai lá depois porque a matéria é boa). Discute várias ideias sobre possíveis moedas virtuais _além de debater o já batido, mas brilhante, PayPal.

Típica contribuição de vanguarda que ajuda a gente a entender essa mudança toda. E que certamente antecipa soluções para diminuir a angústia de quem, como eu, sonha com um dinheirinho vivo saindo do meio do teclado.

Jornais terceirizam impressão e distribuição

Meu mestre e amigo Paco Sánchez, já entrevistado neste site, está em São Paulo e encontrou tempo, entre as atividades no Curso de Focas do Estadão e o Master em Gestão de Empresas de Comunicação, para papear num agradabilíssimo almoço e descobrir o poder da alcatra, esse corte bovino bem mais suculento que a picanha, porém com muito menos marketing.

Isso sim surpreende, por que Paco, diretor editorial do jornal La Voz de Galicia _diário espanhol de 128 anos_ é um antigo frequentador do Brasil (ultimamente tem vindo até cinco vezes por ano ao país) e já deveria saber que a alcatra, benfeita, é muito melhor que a picanha.

Entre uma garfada e outra Paco me conta que vários jornais espanhóis (os de primeira linha incluídos) têm terceirizado o quanto possível o segmento industrial do negócio _impressão e distribuição, notadamente. Motivo: focar o core business, ou seja, fazer um produto jornalístico de qualidade, o que por si só já é caríssimo.

Se pensarmos que o orçamento industrial responde por cerca de 40% dos custos de um produto impresso diário, faz todo sentido. Uma empresa jornalística não deveria ser, necessariamente, administradora de uma gráfica e de uma empresa de logística e distribuição.

Se o jornalismo se ater mais a fazer jornalismo, nossas chances de sobrevivência passam a ser bem maiores.