Arquivo do mês: janeiro 2010

‘Não existe mais informação exclusiva’, diz Marcelo Träsel

Com Marcelo Träsel, jornalista, professor e pesquisador, minha relação é antiga: dividimos opiniões e compartilhamos dúvidas (e soluções) durante um bom período de trabalho no portal Terra. De lá para cá, ele se especializou na análise da influência das novas mídias no exercício do jornalismo. E é assertivo ao dizer que o copia e cola acabou com a informação exclusiva “microssegundos” depois que ela é publicada. Notícia virou commodity, acrescento eu.

Na conversa que você lê abaixo, fiz questão de falar sobre apuração distribuída, seu objeto de pesquisa mais recente. Träsel defende a prática (que consiste em “repartir trabalho” com os leitores, como analisar uma lista extensa de documentos). Para o professor, que comanda uma concorrida pós em Jornalismo Digital na PUC-RS, trata-se de ótimo exemplo de jornalismo participativo _neste caso, o trabalho dos leitores terá, sempre, de passar por filtro e mediação do jornalismo profissional antes de ser publicado.

Falamos ainda de como o leitor-colaborador é maltratado pelo mainstream, que oferece apenas o doce da visibilidade em troca de material exclusivo.

Pesa contra a apuração distribuída o tabu (ou a ignorância, como queira) do mainstream, que acredita que a partir do momento em que disponibiliza abertamente um documento (ou conjunto deles) que obteve com exclusividade, está dando o ouro para o bandido, ou seja, municiando a concorrência com informações que em tese deveriam ser exclusivas. A colaboração do público nunca é lembrada, num primeiro momento. É sempre o menos importante. A discussão sempre começa com “tempos de proteger esse conteúdo a sete chaves e descobrirmos nós mesmos o que ele traz de valioso”. Há um antídoto contra isso? O que dizer aos veículos que ainda protegem informação muitas vezes corriqueira da visibilidade pública e resistem a apelar ao crowdsourcing?

O crowdsourcing e outras formas de participação do público não são adequadas para todas as culturas empresariais. Admiro mais uma empresa que resiste a esse tipo de projeto por apego às rotinas de trabalho e valores jornalísticos da época da mídia um-todos do que as empresas que introduzem o crowdsourcing e seções com graus variados de participação apenas para surfar na onda do “jornalismo cidadão”. E são muitas. Abrir espaços para comentários num webjornal é muito fácil. Difícil é realmente levar em conta a opinião e a informação produzidas pelo público no cotidiano da redação.

Feita essa ressalva, voltemos à questão: o crowdsourcing é uma ferramenta que libera os repórteres de tarefas repetitivas e de pouca exigência técnica, garantindo mais tempo para minerar pautas inovadoras e informação realmente inédita. O verdadeiro ouro do jornalismo não são os documentos, mas o enfoque, o gancho, a pauta. Documentos em si mesmos não dizem muita coisa. Devem ser acompanhados de contextualização, de contrapontos das partes envolvidas. A meu ver, faz mais sentido destacar cinco repórteres para repercutir da melhor forma possível os dados do que condená-los a passar dias garimpando documentos, trancados na redação. Até porque, cerca de 10 microssegundos após a publicação dos dados arduamente refinados, toda a concorrência vai dar CTLR+C e CTRL+V e foi-se a exclusividade. Não existe mais informação exclusiva.

Não custa lembrar também que o papel do noticiário é informar a sociedade, seja por quais meios forem, e não alimentar o ego dos repórteres com furos.

O Guardian tem aquele projeto bem bacana, de ter jogado quase 500 mil notas fiscais na rede e pedido a seus leitores que o ajudem a achar problemas nelas. Mas já surgiram poréns: circula a informação de que assessores parlamentares são contumazes frequentadores do projeto, seja desqualificando provas ou validando outras, sempre de acordo com os interesses de suas siglas políticas. Isso, de certa forma, não sugere que a apuração distribuída é apenas um ponto de partida, algo que exigirá retrabalho, filtros e mais filtros, além de muitíssima apuração, depois? Não pode, em resumo, atrasar o andamento de uma apuração, por mais incrível que pareça?

Embora existam distorções, creio que no fim das contas as estratégias de apuração distribuída sempre vão trazer vantagens para uma equipe de reportagem. Como em todos os sistemas abertos à participação, atores envolvidos nos fatos podem tentar avacalhar a análise dos dados, inserindo contrainformação. Porém, no caso do Guardian mesmo, o sistema permitia a qualquer pessoa revisar as páginas já analisadas e denunciar abusos. Além disso, o número de participantes é tão grande (naquele caso, cerca de 24 mil pessoas) que as distorções provavelmente acabam soterradas pelas intervenções válidas. Pode-se até pensar num sistema que apresente o mesmo documento a, digamos, três participantes diferentes, e avise se houver inconsistências na análise.

Como afirmei acima, porém, os dados em si mesmos não dizem muita coisa. Portanto, o resultado de um projeto de apuração distribuída é, sim, apenas um ponto de partida. Além de contextualizar e repercutir os dados, também é papel dos repórteres verificar todas as informações. Igualzinho a qualquer outro tipo de reportagem.

Não custa lembrar, ainda, que assessores de políticos e profissionais de relações públicas interferem em reportagens realizadas sem ajuda do crowdsourcing usando os métodos mais variados. Um sistema automático ao menos elimina o perigo da influência pessoal e do suborno.

Pra mim o crowdsourcing, para ser bem-sucedido, envolve uma relação de troca. Muitas vezes noto gente que nunca fez nada por mim (ou seja, jamais me deu uma informação útil ou se engajou em algum projeto do meu interesse) pedir auxílio na web. Aliás, acho frequente essa atitude na grande mídia. Parece que ela sempre quer algo de você, mas nunca dá nada em troca _melhorando: acha que seu conteúdo basta. É falha na conversação, reage tal um mamute ante situações novas, é refratária e teme novas tecnologias, segrega o conteúdo produzido pelo usuário a um gueto qualquer em seu site… Tudo pra dizer que reclama-se muito, especialmente no Brasil, do qualidade do colaborador. Mas acho que ele é maltratado, a grande mídia não precisa mudar de atitude?

Quanto a essa questão, vejo dois problemas principais:

1- A mídia se aproveita do material produzido pelo leitor, mas dá em troca apenas “visibilidade” e muitas vezes sequestra esse material. Basta ler os termos de cessão de direitos da maioria dos sistemas de colaboração do leitor para perceber isso. Em geral, ao enviar um texto, áudio ou imagem, o leitor abdica de todos os direitos sobre esse material – até mesmo o direito de publicar esse material em sua conta no YouTube, álbum do Flickr etc.

As colaborações enviadas passam a ser propriedade da empresa de comunicação, o que, convenhamos, é ridículo e absurdo. Se produzi uma foto e a enviei de graça a um jornal, tenho de no mínimo manter os direitos de uso. Os setores jurídicos vêem a colaboração do leitor como uma doação, quando, na verdade, é um compartilhamento, uma concessão, um empréstimo. É justo que o leitor faça o mesmo empréstimo a outros jornais e distribua a informação via redes sociais. O interesse da sociedade é que a informação seja disseminada o máximo possível, e não que empresas de comunicação transformem a participação do público em uma fonte de matéria-prima barata.

Seria muito justo se as notícias produzidas com base em dados e imagens enviados pelo público fossem distribuídas sob licença Creative Commons, por exemplo, já que a empresa não pagou por elas. Talvez seja pedir demais.

2- As informações enviadas pelo público interferem muito pouco na rotina das redações. São raros os casos em que uma equipe dedicada a isso vai atrás das lebres levantadas pelos colaboradores. Envolver-se com os assuntos de interesse dos colaboradores seria a melhor forma de pagá-los pelo compartilhamento de informação e contribuiria muito para melhorar, do ponto de vista social, a cobertura da imprensa.

As pautas enviadas pelo público são um excelente termômetro da sociedade e uma forma de adequar a cobertura ao interesse real da comunidade. É claro, pouca gente se interessa por notícias de Brasília e isso não significa que se deva seguir cegamente os dados de audiência e extinguir a editoria de política. Talvez, porém, pudesse haver menos governo federal e mais governo municipal, Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa na imprensa regional. Mais bairro e menos país.

Percebo que as colaborações enviadas por leitores nos bons projetos de webjornalismo participativo em geral se preocupam em cobrir essa lacuna da cobertura. São mais voltadas ao buraco na rua, aos ônibus superlotados, ao terreno baldio cheio de lixo. Alguns jornais têm aproveitado essa fonte inesgotável de pautas e designado repórteres para aprofundar os temas. A maioria, porém, enxerga as seções de webjornalismo participativo como um tipo de parquinho onde o leitor pode brincar de ser jornalista. É um desperdício.

Uma charge genial vale mais do que um milhão de palavras

Os Beatles na Abbey Road seguem Lula e seu isopor cheio de energéticos (Chico Caruso, capa de O Globo de 8/1/2010)

Os Beatles na Abbey Road seguem Lula e seu isopor cheio de energéticos (Chico Caruso, capa de O Globo de 8/1/2010)

Texto grande ou pequeno, um dilema jornalístico

Eu gosto da discussão sobre o tamanho das matérias, seja no jornalismo impresso, seja no on-line. A verdade é que não há um padrão. O que é muito grande? O que é adequado?

Não se pode afirmar categoricamente que textos muito longos não são lidos na web _há a questão física, de que ler numa tela costuma levar 20% a mais de tempo, além de outros estudos do mestre da usabilidade, Jakob Nielsen.

Mas há também a impressão do conteúdo da tela em papel, o que a grosso modo equipara as coisas.

Pensando no papel, por que diabos textos longos não caberiam nele? Não estamos justamente clamando por textos melhores, mais analíticos e contextualizados, o que a rigor supõe mais centimetragen?

Ao mesmo tempo, o leitor de jornal, o cara que ainda recebe um produto do tipo em casa, será que ele quer se informar rapidamente? Fosse isso, um jornal feito ontem seria o último lugar indicado, não?

Enfim, é um pouco a síndrome de Tostines.

A ótima revista The Atlantic deste mês analisa o problema sugerindo que se cortem os textos _mas baseada numa análise de reportagens que abusam do nariz de cera e da paciência do leitor.

Eterna discussão.

Equipe de revista extinta vai para o ‘exílio’ on-line e acredita em ressurreição

A equipe da Editor & Publisher, publicação de 125 anos que analisava o mercado editorial e fechou as portas no final do ano passado, ainda não desistiu: montou um blog e, trabalhando de casa, segue fazendo o que estava habituada a fazer.

O E&P In Exile, o blog, reúne nove jornalistas da finada revista. E eles estão esperançosos de que haverá uma boa alma para comprar o título e ressuscitá-lo.

Acho difícil. Melhor seria tentar viabilizar um modelo de negócios para o conteúdo que eles sempre fizeram tão bem _nos EUA, experiências de financiamento público são as mais promissoras.

Mas nossa tendência é temer a vida fora do guarda-chuva do patrão, sempre.

Fotógrafos expõem proximidade com o poder nos EUA

No dia 20 agora, quatro ex-fotógrafos presidenciais dos EUA exibirão como era a vida na Casa Branca nas administrações de Lyndon Johnson, Gerald Ford, George H.W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush.

“Behind The Lens: White House Photography From LBJ To Obama” é o evento, que será abrigado pela Universidade do Texas, em Austin.

David Hume Kennerly (Ford), Robert McNeely (Clinton), David Valdez (Bush pai) e Eric Draper (Bush filho) também falarão sobre seus tempos de proximidade com o poder.

Ah, o verdadeiro chamariz para o bate-papo é Barack Obama, cujo álbum fotográfico oficial da posse acabou de ser lançado _e com imagens do pessoal acima.

Governo francês põe dinheiro para manter sites noticiosos vivos

Um ano depois de oferecer benefícios fiscais e outras benesses, como a concessão, a todo jovem ao completar 18 anos, de uma assinatura de um jornal, o governo francês anunciou novo pacote de bondades para a mídia do país.

Agora são os sites “puro-sangue”, ou seja, web-only (casos do Slate.fr ou do Rue89), que vão meter a mão na grana. Serão 60 milhões de euros por três anos, 80% deles em subvenções e o restante em dinheiro vivo.

É a estatização pura e simples do jornalismo em países, como a França, em que ele está pra lá de moribundo.

Pelo menos, ao abraçar os sites, o governo de Nicolas Sarkozy dá um recado de isonomia, já que por ora apenas os jornalões tinham se beneficiado de dinheiro público para manter suas operações vivas por mais algum tempo.

Quanto tempo? Não se sabe.

Paulo Querido: ‘As redações são insubstituíveis’

Pouca gente sabe, mas o Webmanario tem fortíssimos laços lusófonos. Há meses em que 40% de sua audiência provém d’além-mar. E a conversa com meus colegas de lá tem sido muito rica. Bem por isso publico os textos aqui cedo, para que meus amigos africanos e europeus possam acessar o quanto antes.

Daí que eu resolvi falar com Paulo Querido, 49 anos, jornalista como nós. Um cara que (eu também) passou pelo jornalismo esportivo e agora navega por outros mares. Um pioneiro das ferramentas que facilitam, na internet, a prática do jornalismo. E um crítico feroz dele, especialmente o formal _melhor dizendo, o burocrático.

Sem mais delongas, eu queria saber dele se as redações vão acabar. Isso, as redações, esse bando de pessoas reunidas em torno de um objetivo, que é preencher espaço e lapidar unidades de informação, usando design de notícias, até o momento do fechamento.

“As redacções têm funções insubstituíveis”, me conta Querido. Leia o contexto e a íntegra da conversa abaixo.

Portugal parece ter adotado o microblog como plataforma pessoal de publicação, e vc é um dos pioneiros desse movimento (não tenho números, mas a relação usuários de internet versus usuários de internet com conta ativa no Twitter deve ser extraordinariamente alta em seu país). Passado o hype, já deu para entender exatamente de que forma o mainstream está usando o microblog num ambiente em que vários outros usuários parecem sempre estar passos à frente do jornalismo profissional? Você aprova o uso que a imprensa formal tem dado à plataforma?
A utilização do Twitter em Portugal não segue fielmente a evolução noutros países. Um exemplo? Ao contrário do que se passa no Brasil e também nos EUA, cá praticamente ninguém da cultura/entretenimento ganhou protagonismo no Twitter. À excepção de 3 ou 4 humoristas e 1 músico, não há “celebs” portuguesas na plataforma.

Dada essa e outras bizarrias lusitanas, não espantará que os media sigam o mesmo caminho de desentendimento.

A maior parte passou ao lado. Apenas a televisão pública e um pequeno jornal online em formação (o Diário2) tiram algum partido do Twitter, fazendo um uso correcto da plataforma. Os outros não fazem sequer ideia do que é o Twitter: limitam-se a despejar títulos de matérias para lá, usando o Twitterfeed, e não mostram critério para a gestão dos followers.

Manuel Castells diz que a política é essencialmente midiática. Partindo desse conceito, você acha que a leva de políticos embarcados ao Twitter tem conseguido transmitir mensagens positivas para seus propósitos eleitorais ou, todo o oposto, estão fervendo num caldeirão de conversação onde a última palavra parece ser sempre a do público?
Portugal passou 3 actos eleitorais em 2009, o ano do Twitter. Diversos políticos e governantes, bem como jornalistas de política, usaram o Twitter. Penso que, mais que transmitir mensagens positivas, o melhor uso foi ao nível de estabelecer diálogos com retransmissores com alguma influência, por um lado, e, mais importante, usando o Twitter como um grupo de foco, como se faz na publicidade; o Twitter foi essencialmente um tubo de ensaio para frases, soundbytes, discursos e temas.

Sua visão sobre o jornalismo tradicional é bem peculiar. Somos de um tempo em que só podíamos recorrer a ele, mas hoje há tantas alternativas para iniciativas pessoais que, fosse na nossa época, é muito provável que jamais tivéssemos trabalhado numa redação formal por horas a fio. Onde isso vai parar? As redações deixarão de existir? O trabalho jornalístico poderá ser todo ele feito de maneira remota, recorrendo a novidades tecnológicas de concepção e acabamento do produto e de comunicação entre os jornalistas?
Não creio que as redacções deixem de existir. Seguramente que diminuirão de importância e de tamanho, à medida que se deslocalizam para a Internet muitos dos processos e rotinas do trabalho jornalístico. Sim, muito trabalho é feito (com vantagem) remotamente, mas subsistirá uma parte do trabalho que demanda presença física e, sobretudo, contactos verticais.

Os aspectos da cadeia hierárquica da produção do jornalismo, e também da socialização profissional dos jornalistas, não podem desaparecer. As redacções têm funções insubstituíveis. O video com mais qualidade, a edição de som cuidada, as reuniões entre equipas que perseguem os mesmos objectivos ou temas, o secretariado, as relações com a empresa, a formação…

Não há maneira mais prática de dar respostas adequadas a estes ítens do que ter uma redacção. Do que não tenho dúvidas: o jornalismo é cada vez mais necessário e a sociedade depende crescentemente dele para estar bem informada.

O fim anunciado de um dos seus transportes, o papel de jornal, e os problemas de adaptação do futuro modelo económico são obstáculos que estarão rapidamente ultrapassados porque a verdade é esta: a procura de notícias está a aumentar, é uma questão de tempo até os media acertarem com os melhores mecanismos para a oferta.

Jornal vira o Ano Novo plagiando matéria

Entra ano, sai ano, e o jornalismo continua convivendo com os mesmos problemas. O plágio juramentado é o principal deles.

A prática se disseminou, e não culpe a internet e seus redatores repletos de tarefas: os jornais impressos copiam a web, e muito.  Ô se copiam.

O último caso que se teve notícia é evidente: o chileno La Tercera copiou descaradamente trecho de notícia postada num blog do argentino Clarín sobre o rali Dakar, que ocorre precisamente neste momento nos dois países.

Vergonha alheia básica, né?

A mobilização pelo slow e o problema que ela causa

O slow journalism, movimento que recomenda menos velocidade (por mais qualidade) no consumo de informações, deve recrudescer em 2010. Ainda mais em ano de Copa do Mundo e eleição (no Brasil), quando as pessoas naturalmente passarão mais tempo na internet.

Mas há um problema grave com a mobilização pelo slow: ela omite que hoje, na era da publicação pessoal, emissor e consumidor de notícias são a mesma pessoa _o produser. A rigor, e sendo bem chato, seria o colapso do on-line.

E há quem não seja e consuma notícias exatamente como fazia em 1970: vendo TV, ouvindo rádio e lendo jornal.

Eu acho essa revolta contra o overload informativo uma grande bobagem. Assim como cada meio, cada pessoa tem seu timing.

Se eu quiser ter um site que não é acessado por ninguém, adoto o slow journalism _por sinal, as revistas semamais fazem isso desde sempre, sem provocar nenhum furor do gênero. Não há novidade nisso. E a vocação do meio revista. Ponto.

Compreenda: a web é O lugar para a atualização rápida. Se você a transforma numa coisa lerda, está dizendo às pessoas “compre o livro”.

Há outras plataformas para burilar a notícia, com a diferença de que elas são todas mais caras. É um argumento que joga a favor da apropriação da web para fins “reflexivos”.

Mas o único.

Lembranças de 2009: Lula e a gente, a mídia

Foto: Sérgio Lima/Folha Imagem

Em sua última coluna “O Presidente Responde” (publicada numa centena de jornais) de 2009, Lula é indagado por um cidadão com a seguinte questão: “Nos anos 90, o sr. dizia que se eleito acabaria com o monopólio da mídia. Por que o sr. ainda não cumpriu o prometido?”

A resposta é um soco no estômago da grande mídia.

“Não há dúvida de que o monopólio da mídia não é bom para a democracia. Aliás, a Constituição é clara: ‘Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.’ Mas cabe ao Congresso regulamentar os mandamentos constitucionais.

As próprias mudanças econômicas e sociais, no entanto, vêm provocando transformações na comunicação social no Brasil. Há cinco anos, os jornais tradicionais do eixo Rio-São Paulo estão estacionados em 900 mil exemplares, enquanto os jornais das demais capitais cresceram 41%, chegando a 1.630.883, os jornais do interior subiram 61,7% (552.380) e os populares cresceram nada menos que 121,4% (1.189.090).

O panorama se repete com as emissoras de rádio e de TV. No Congresso, está tramitando o Projeto de Lei 29/2007, que normatiza e amplia a oferta de TVs por assinatura, o que vai aumentar a concorrência e favorecer os assinantes.

Esse fenômeno se deve às mudanças da sociedade, mas também às ações do governo, que vêm reduzindo as desigualdades regionais.

O governo federal também tem promovido uma desconcentração das suas campanhas publicitárias. Até 2003, elas eram centradas em apenas 499 veículos e hoje alcançam 5.297 órgãos, um aumento de 961%.”

A questão da distribuição do cobiçado bolo publicitário do governo federal foi tratado, numa determinado momento, como espécie de “Bolsa-Mídia” do lulopetismo, chegado a repartir renda em troca de alguma coisa.

Porém fica difícil atacar a descentralização. Ela é sempre positiva. Restou, de 2009, essa sensação de que a imprensa regional pode sobreviver em meio à crise do jornalismo em papel. Desde que isso não custe a sua independência, sou a favor.