Arquivo do mês: novembro 2009

Algumas considerações sobre o Enade

Questão 38 – Discursiva

Considere as linhas editoriais a seguir:
I. Jornal popular, geralmente criticado por ser sensacionalista, inventar e/ou omitir fatos e preocupar-se apenas em faturar, aumentar a tiragem, publicar notícias irresponsáveis, atrair e agradar certo público-leitor.
II. Jornal de grande porte, considerado mais responsável, por vezes esquece o verdadeiro interesse pela informação, manipulando a notícia em favor de outros interesses empresariais, financeiros, comerciais, etc. E, assim, poder incorrer em muitos erros.
Compare as linhas editorais, aponte as principais inconsistências desses veículos e proponha uma inovação que signifique avanço na relação mídia e sociedade.

Esta questão do Enade específica para o curso de Jornalismo desatou a loucura em meios acadêmicos e profissionais. Colegas, como o professor Nilson Lage, viram manipulação ideológica no teste.

“Cada uma das afirmações dadas como corretas representa uma posição da esquerda reacionária que pretende dominar a consciência das pessoas reproduzindo métodos nazistas e stalinistas: punir quem não concorda, até que o sujeito aceite para não ser punido e termine aderindo”, afirmou Lage.

Bem, a primeira conclusão que se pode tirar da prova é que ela ruim. Como quase todas, escrita num português que não é corrente. Os enunciados são oblíquos, vertiginosos, esfumaçados.

Outra conclusão bem objetiva sobre o teste é que ele foi bem abrangente. Falou de dispositivos móveis, blogs corporativos, assessoria de imprensa, Código de Ética, rádio e TV, direito na internet…

Não enxerguei ideologia no questionário exclusivo aos alunos de Jornalismo. Houve uma citação desairosa a Veja, é verdade (o delicioso caso Boimate), mas apenas para dar combustível às teorias da conspiração.

Mas… e a questão 38?

Pra mim ela é uma obra de ficção. Um exemplo inventado, digo.

Porém todos os jornais, em algum momento, passam pelas situações descritas. Mas isso jamais seria uma diretriz editorial.

Reclamar dessa questão é, claramente, assumir uma carapuça (aliás, apontar esse viés em qualquer aspecto da prova é assumir um fracasso, ainda que intelectual e pessoal).

Mas voltando ao assunto: um veículo jornalístico com essas premissas não sobreviveria à primeira esquina.

É essa a resposta correta, diga-se.

O erro dos jornais que investem contra o Google News

Folha e O Globo aderiram, na semana passada, à Declaração de Hamburgo, um documento da indústria dos jornais que clama pelo “respeito às leis de propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet”.

O problema é que a carta (PDF), como quase sempre acontece quando neófitos tentam falar ou legislar sobre a web, imagina ser capaz de definir limites absolutamente incontroláveis porque a internet, e quem não sabe disso parou no tempo, é dominada pelo usuário, não por grandes corporações.

Primeiro que os publishers deixam claro que a cobrança por conteúdo é uma prioridade _quase uma panaceia que estabelecerá paredões pagos cujo único efeito prático será o desaparecimento das marcas (e de seu conteúdo) da internet “legal”.

Claro, se você se fecha totalmente a assinantes, se esconde do resto do mundo que usa as ferramentas de busca para encontrar o que deseja. Sem contar que nem isso garante a proteção ao seu rebanho _seu conteúdo será distribuído de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes por pessoas que amam você.

Outro erro da indústria jornalística é investir contra agregadores como o Google News. Pode ter certeza de que eles não estão usurpando seu conteúdo, mas o divulgando e levando a lugares que você jamais esperava alcançar.

E não me venham falar no exemplo do The Wall Street Journal, que a cada dia amplia sua carteira de assinantes on-line (eles já são bem mais de um milhão). Informação econômica (e que se reverte em dinheiro) é precisamente a única que o ser humano não está disposto a compartilhar.

Bem por isso Rupert Murdoch adiou recentemente seu plano de cobrar pelo acesso aos sites jornalísticos sob o seu comando. É que é preciso uma justificativa muito forte para fazer as pessoas pagarem pelo que é de graça há tempos na internet.

Trabalho para um psicólogo mesmo.

Caminhoneiros americanos: um ensaio fotográfico

foto_tim_gruber

Foto de Tim Gruber no projeto "Caminhoneiros Americanos"

Domingo é um dia bom pra ver.

Achei o site que reúne o trabalho de Tim Gruber, fotógrafo de Nova York.

E o ensaio com caminhoneiros americanos é um oásis.

Mas será que não falta alguma coisa para a narrativa ficar mais sólida?

A volta de Jayson Blair. E numa aula de ética

“Eu me lembro de ter cruzado essa linha e dito para mim mesmo ‘cara, eu não vou fazer isso de novo. Amanhã, voltarei para o lado do bem e farei as coisas como se supõe que elas devem ser feitas’”.

A frase é de Jayson Blair sobre um deslize cometido logo após os ataques de 11 de setembro, quando inventou o nome de um personagem de uma reportagem. Segundo ele, teria sido a primeira mentira de uma série que levou sua carreira à ruína.

Responsável pelo maior escândalo da história de 158 anos do New York Times, Blair foi demitido em 2003 após confessar que havia inventado aspas, fatos e personagens. Atualmente ele trabalha numa clínica psiquiátrica onde também se submete a tratamento.

Ontem, voltou a circular num ambiente jornalístico ao palestrar para estudantes da Universidade Washington e Lee, em Lexington, numa cadeira sobre ética.

É sempre bom manter vivo na lembrança o caso Blair e suas consequências.

O que há de realmente novo no New York Times

Mesmo sem fazer dinheiro (pelo contrário, torrando orçamento), o The New York Times continua investindo fortemente em inovação na web.

Agora o jornal põe à disposição o seu portfólio de experimentações voltadas para manter o usuário por mais tempo dentro do site _o tempo de permanência é, hoje, a moeda mais poderosa da internet, superando por muitas cabeças o page view ou a visita única.

Tem todo tipo de aplicativo, e para diversas plataformas.

Mais uma fonte inspiradora para quem procura boas soluções, o tema que predominou nas discussões desta semana por aqui no Webmanario.

O conflito existencial entre a relevância jornalística e o interesse da audiência

Acaba de sair um estudo na Suécia que coloca sobre a mesa uma porção de questões interessantes sobre a nossa profissão. A conclusão é que os jornalistas vivem um eterno conflito existencial entre o interesse do público e o que consideram verdadeiramente notícia.

Recentemente conversei com Pablo Pereira, editor-executivo na web de O Estado de S.Paulo, sobre o quesito audiência. E a posição dele é clara: que o jornalista não pode estar preocupado com o alcance do que relata, ou melhor, em entrar numa disputa clique a clique nas matérias que escreve.

O que deve prevalecer, diz Pablo, é nossa noção profissional do que é relevante e deve ser destacado e priorizado.

Há uma pontinha de arrogância numa declaração como essa, mas eu tendo a concordar em grande parte com ela. Valorizo como poucos a importância de se ouvir a audiência e dialogar com ela, mas isso não exclui nossa responsabilidade de, sim, e enquanto houver esse modelo de distribuição de notícias, apontar o que é importante.

Ulrika Andersson, do Departamento de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade de Gotemburgo, resume bem a situação. “Geralmente, os jornalistas sentem que é importante responder àquilo que a audiência quer, mas ao mesmo tempo eles frequentemente não sabem realmente do que se trata”.

Para muitos, bastam os dados de acesso às notícias on-line do dia anterior.

E eu pergunto: será?

A visão de Lula sobre o jornalismo está equivocada?

Muito do que Lula tem dito sobre o trabalho da imprensa não só faz bastante sentido como, temos de admitir, está correto.

Como num evento com catadores de papel, na semana passada, quando o presidente disse que a mídia “já não decide mais, porque o povo não quer mais intermediários”.

Eu não diria nem que não quer, mas a verdade é que ele não precisa. O avanço tecnológico e a comunicação em rede permitiu isso, a comunicação direta entre governante e governado. Ou não foi essa a mensagem transmitida por Barack Obama na campanha eleitoral do ano passado?

No mesmo evento, Lula pediu aos repórteres que não interpretassem fatos. Outra recomendação, direcionada a um repórter, que parece correta, não?

 Interpretar (diferente de fazer sinapses e mostrar situações) é um papel um pouco mais acima na cadeia produtiva do jornalismo.

Agora, quando diz que o papel da imprensa não é fiscalizar, mas informar, como em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Lula extrapola o bom-senso. É ambos, senhor presidente.

Mas não acho que devemos atirar pedras pelo conjunto da obra de suas opiniões sobre nossa profissão. Pelo contrário, elas estão alinhadas com o planeta Terra em 2009.

Projetos mulmídia que extrapolam o jornalismo (e nos dão ótimas ideias)

Você está procurando referências sobre grandes trabalhos multimídia (ou seja, a aposta em narrativas que incluam foto, vídeo, áudio e o que for) e não sabe onde encontrar?

Pois bem, o Multimidiashooter selecionou dez exemplos de tirar o fôlego (um deles, a reportagem “Cáli, a cidade que não dorme”, já havia sido recomendado aqui recentemente).

Ah, nem todos os projetos são jornalísticos. Melhor ainda: há tempos a criatividade anda caminhando longe das redações _exemplos da publicidade ou do design sempre nos dão ideias ótimas).

Casos como o da Economist, em que uma série de profissionais mostra seu ambiente de trabalho, o lugar onde têm mais inspirações.  Verdadeiramente sensacional.

Desfrute.

Europa discute os direitos do cidadão digital

A Europa está discutindo, neste momento, a Carta de Direitos dos Cidadãos na Era Digital. É um documento importante e com vários pontos que considero fundamentais para esta e as próximas gerações.

Entre as sugestões espanholas para a União Europeia estão a banda larga como serviço público universal, a neutralidade da rede, a necessidade de se manter em domínio público conteúdos subsidiados com impostos, padrões abertos para a tecnologia, o direito de acesso a informações públicas e, enfim, aumento de proteção dos direitos dos cidadãos que acessam a rede.

É uma discussão que diz respeito a todos nós.

Juan Varela aborda longamente o assunto, para quem quiser se aprofundar.

Outras definições toscas de jornalismo nos dicionários

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O Houaiss tem uma estranha visão sobre jornalismo

Ontem eu contei aqui que decidi ir ao dicionário Aurélio checar a definição de jornalismo _e que me decepcionei com o que encontrei.

Daí a Karina Padial, que é repórter da revista Imprensa, teve uma ideia ainda melhor: conferir, em outros dois dicionários nacionais, acepções para o termo. E os resultados foram ainda mais assustadores.

Enquanto o Aurélio patina ao limitar o campo de atuação da atividade, o Houaiss perpetra uma definição verdadeiramente assustadora. É o item três do verbete, que você vê reproduzido no início deste texto. Segundo ele, jornalismo também pode ser a “abordagem superficial de um tema, menos interessada em esclarecê-lo do que em agradar o gosto e os interesses populares que estão na moda”. É?

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Curto e grosso: o Michaelis quase não tem palavras para definir o jornalismo

Lacônica e minimalista, a definição do Michaelis (justamente por isso) acaba sendo a que diz menos bobagem.