Arquivo do mês: novembro 2009

O jornalismo não se vende, o jornalismo se compra

Surgiu na Espanha uma proposta interessante que vai na linha dos clubes de leitores recentemente criados por Washington Post, Guardian e Times.

O jornalista Arcadi Espada está pedindo 50 euros de leitores interessados em fundar um diário digital. A esse grupo de fundadores do Factual estão reservadas uma série de benefícios durante o primeiro ano de funcionamento do novo veículo, entre os quais visitas à redação e acesso irrestrito ao conteúdo.

Num momento em que a fidelização do leitorado tem sido debatida como uma das saídas para a crise dos jornais, é um processo a ser acompanhado de perto.

Se funcionar, será outra demonstração de que o público está realmente disposto a financiar o jornalismo. A partir daí a conversa poderá passar a ser outra.

Os jornalistas são sexies e babacas?

Os jornalistas são sexies ou babacas. Pelo menos é o que se depreende ao buscar fotos que representem a categoria no iStock Photos, banco de imagens que aposta na conceito da cauda longa: vende muito por bem pouco. A maioria das imagens custa uma ninharia, vale conferir. Além de tudo, o projeto é colaborativo.

Lembro que outro dia falei sobre a representação dos jornalistas no cinema _com raras exceções, eles não se comportam como jornalistas.

Agora, o 10,000 Words resolveu checar a quantas andava a moral da categoria no iStock Photos. E chegou à conclusão que abre este texto. A “fotógrafa” que aparece no foto acima e o bobalhão aqui embaixo são ótimos exemplos.

Triste estereótipo ou dura realidade?

Jornalismo financiado pelo público chega à grande imprensa

O jornalismo financiado pelo público finalmente chegou à grande imprensa. Cerca de 100 doadores colaboraram com dinheiro para que se concretizasse reportagem de Lindsey Hoshaw, publicada pelo New York Times, sobre a catástrofe ambiental provocada pelo lixo numa região bem específica do Oceano Pacífico.

A proeza é do Spot.us, organização sem fins lucrativos que aposta na ideia de que os leitores são os maiores interessados no trabalho jornalístico e, logo, teriam interesse em bancar reportagens.

Foi a entidade, criada por Dave Cohn após ganhar uma bolsa de US$ 370 mil, quem intermediou a negociação com o Times e garantiu a publicação da matéria numa vitrine privilegiada.

O jornalão se interessou de imediato pela reportagem, mas, como sempre, desde que não metesse a mão no bolso.

É um grande dia para os que acreditam, como eu, em novos modelos de financiamento para o combalido jornalismo.

Nós, os leitores e o filho secreto de FHC

A minha ficha só caiu depois de ler, na seção de cartas de um jornal, um leitor intitulando-se “otário” por só agora ter ficado sabendo que o ex-presidente FHC teve um filho fora do casamento, ainda antes de ser presidente, com a jornalista Miriam Dutra, da Rede Globo.

Claro, o Brasil não é a França, onde casos extraconjugais de políticos são certos, sabidos _e não noticiados. E muito menos os Estados Unidos, onde por muito menos que um filho um presidente quase perdeu o cargo (é verdade que por mentir acerca de seu relacionamento com uma estagiária da Casa Branca, não pelo affair em si).

Será que de fato tratamos como idiotas os nossos leitores durante esse tempo todo? A informação sobre o filho secreto de FHC era, afinal, de interesse público?

Não importa, o fato é que nas redações o assunto era corrente há muitos anos, como uma busca despretensiosa no Google confirma (role a página e leia a nota ‘Conivência: não é bem assim’). Antes do Plano Real eu já sabia disso, pra você ter uma ideia. Estou falando de 1993…

E, mesmo assim, negligenciamos, deliberada ou inadvertidamente, uma informação que, anos depois, fez pelo menos um leitor se sentir um otário.

Eu não sei você, mas eu sinto que fracassei.

Um projeto que poderia ser jornalístico, se nos importássemos com isso

A participação não é um paradigma da web, é uma realidade que o jornalismo ainda está aprendendo a conhecer. No geral, o usuário da internet é segregado quando o assunto é notícia _sua contribuição, no máximo, ocupa canais específicos de portais, sempre jogados num canto qualquer.

Fora do jornaismo, porém, a compreensão de que as pessoas devem dar as cartas e ser ouvidas está bem mais consolidada. O projeto Vote na Web é um exemplo que poderia perfeitamente estar dentro de um projeto jornalístico (e ajudar repórteres a compreender o pulso popular diante de iniciativas parlamentares).

No site, o internauta tem a possibilidade de dizer sim ou não a todos os projetos de lei que estão em tramitação no Congresso, além de acompanhar o comportamento de seus representantes nas casas legislativas. Um evidente instrumento de pressão, no mínimo.

De novo, uma iniciativa simples, mas que dá ao usuário da web (enfim, um cidadão) a exata medida de sua importância. Coisa que o jornalismo, com as bravas exceções, ainda parece não ter compreendido.

Até quando vamos tratar essas pessoas, nossos clientes, afinal, como se fossem passivos devoradores de notícias? Não está claro que as pessoas querem (e já estão, independentemente da gente) participar de processos?

Quem soube primeiro foi a Adriana Salles Gomes, cujo único defeito é ser são-paulina.

Quentin Tarantino e receitas de bom conteúdo na web

O Multimidia Shooter descobriu o Guia Quentin Tarantino de bom conteúdo na web. Conteúdo jornalístico com J maiúsculo, diga-se.

Inspirado, o site lista nove trabalhos multimídia recém descobertos. Coisas finíssimas, como o projeto One in 8 Million do NYT, posteriomente replicado pelo Los Angeles Times. Perfis de moradores destas cidades. Simples e ótimo.

Ou o TCC de uma turma da Universidade da Carolina do Norte (onde leciona Alberto Cairo) nas Ilhas Galápagos, no Equador.

Entre as dicas há novos projetos, como o Videojournalism Movement.

É sério, vale olhar com tempo toda a lista.

HQ, fotonovela, não importa: é jornalismo, e de vanguarda

nova_narrativa_JC

Já faz algum tempo que tenho ressaltado a importância de projetos multimídia (especificamente aqueles que abraçam novas narrativas jornalísticas na web) para que nossa profissão desfrute a era digital e dê algum tipo de resposta aos que questionam o seu futuro.

E vejam que maneira interessante o Jornal do Commercio, de Recife, escolheu para contar uma história sobre o uso da bicicleta como alternativa ao carro e ao trânsito das grandes cidades.

Linguagem de HQ que agrega fotonovela, vídeos, fotos, edição jornalística e até making of (talvez o trecho menos bem-sucedido). Os créditos são de  Julliana de Melo e Sidclei Sobral.

Lembrei da tão criticada HQ do G1 sobre a morte de Michael Jackson, que eu achei boa pra dedéu. Critique-se a espetacularização ou o traço sem acabamento (os dois poréns que mais ouvi sobre esse trabalho), mas não se pode deixar de valorizar a iniciativa. Estamos, o jornalismo, precisando dessas coisas, gente.

O jornalismo deve se apropriar de linguagens velhas e novas, até das antes consideradas não jornalísticas, para narrar fatos de forma mais atual e apropriada às plataformas hoje existentes.

Quem descobriu a contribuição do Jornal do Commercio, e também elogiou, foi o Fernando Firmino, uma das maiores autoridades em jornalismo móvel (e seus dispositivos) no Brasil.

Um formato inusitado para jornais impressos

jornal_vertical

Ideias novas são sempre bem-vindas.

Vem da Holanda, capitaneada pela Telegraaf (um dos gigantes do ramo de jornais e revistas no país), uma sugestão para facilitar a leitura dos diários em ambientes densamente povoados, como o transporte público.

O jornal vertical, de fato, parece ser o formato que melhor resolveu o problema de virar as páginas de uma publicação (o vídeo acima é autoexplicativo).

Tudo bem que as demonstrações deste tipo de produto são sempre caricatas e mais próximas de uma comédia pastelão.

E tudo bem também que o jornal impresso, ainda mais na Europa, está cada vez mais distante das mãos das pessoas em trânsito.

Até porque o celular resolve essa parada com muito mais rapidez e otimização de espaço.

Mas boas ideias são sempre boas ideias.

A dica é da Adriana Salles Gomes e de seu ótimo Update ou Die.

‘O Abraço Corporativo’ é porrada pedagógica na imprensa

O jornalismo bem que poderia não ser mais o mesmo depois do documentário “O Abraço Corporativo“, que acompanha a trajetória de um incógnito consultor de RH e sua ideia estapafúrdia rumo ao estrelato e à agenda dos grandes meios de comunicação (veja o trailer).

O filme é uma porrada na nossa, como bem pontua André Deak, imprensa “sem critérios”, que engole com facilidade histórias que diariamente são vendidas com ou sem assessoria profissional por gente que quer apenas aparecer.

Ary Itnem, o protagonista do filme, é evidentemente um personagem, e o tal abraço corporativo (que ajudaria a melhorar o clima nas empresas) jamais existiu. O nome do consultor, por sinal, é uma clara alusão à palavra “mentira”, mas ninguém notou.

Assim, Ary virou matéria e foi entrevistado por veículos do calibre de Folha de S.Paulo, CBN, TV Record, O Globo, Band, Veja em São Paulo etc…

Coisas assim precisam ficar eternamente na memória para a gente questionar a nossa vulnerabilidade.

Por que os jornalistas merecem ganhar tão mal?

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo recomenda à categoria que aprove o consentimento à proposta de 5,45% de reajuste oferecida pelos patrões _trata-se de reposição da inflação, apenas e então somente.

O problema é que o piso muitas vezes é o teto. E também é burlado, como é frequente no jornalismo on-line com a contratação de “assessores técnicos” com salário inicial ainda mais baixo.

Hoje as urnas de um plebiscito comandado pela entidade percorrem mais redações da cidade. A adesão à proposta significa elevar para R$ 2.900 e pouco o piso para sete horas de jornada da profissão.

Imediatamente me lembro do texto de Duílio Ferronato, arquiteto com boas incursões no jornalismo e assustado com o que se paga para os jornalistas _muitas vezes, nada.

E na sequência remeto-me aos pensamentos de Robert G. Picard na já clássica “Por que os jornalistas merecem ganhar mal“.

Se for pra ficar nesse estado de coisas, não sairemos disso.