Arquivo do mês: outubro 2009

O Valor Econômico e a fonte que não fala ‘nem a pau’

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Às vezes, coisas que escrevemos em documentos que deveriam ser particulares (como rascunhos em nossas pastas pessoais ou mesmo o texto da pauta do dia, que costuma _e deve mesmo_ ser mais informal) acabam vazando, e por ene motivos.

valor_nemapauNo caso do jornal impresso, é um caminho sem volta. Publicou, está eternizado.

Aconteceu na semana passada com o Valor Econômico, que numa reportagem sobre o interesse da Telefónica na aquisição da operadora GVT (empresa-espelho da Brasil Telecom) relatou que Fernando Antônio França Pádua, chefe interino da Superintendência de Serviços Públicos da Anatel, “não fala nem a pau”.

Como disse Ancelmo Gois, “acontece nas melhores famílias”.

Conversas sobre a publicação pessoal

Sexta-feira ministrei a primeira parte da conversa sobre publicação pessoal e o jornalismo para os trainees da atual turma de treinamento de Folha de S.Paulo, a 48ª da série.

É aquele papo que os jornalistas, normalmente, não estão muito dispostos a ouvir: que temos de deixar o pedestal e assumir que o público, graças ao avanço da tecnologia, tem à disposição as mesmas ferramentas que nós.

Os slides da aula

O roteiro de links (senha: webma)

Mais: que público, fontes, empresas e governos estão publicando o tempo todo na internet, muitas vezes mais do que nós próprios, dispensando definitivamente a mediação da imprensa para se comunicar entre si.

É um estado irreversível contra o qual não adianta espernear. Infelizmente, ainda é mínima a compreensão, no jornalismo profissional, de que essa situação força a convivência com todos esses jogadores e, mais do que isso, o diálogo entre todos nós que, hoje, desempenhamos essa tarefa extraordinária que é apurar/difundir/analisar notícias.

Espero que essa nova geração que chega agora às redações entenda o recado.

A tirania do texto na internet

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Tenho conversado bastante, com o jornalista e professor Alberto Cairo, sobre o que ele denomina de “tirania do texto” nas narrativas jornalísticas na internet. É fato: são pouquíssimas as iniciativas que apostam em outras peças do jogo para contruir um relato noticioso.

Nós, jornalistas, parecemos ter um pouco de medo de nos livrarmos dos caracteres que decifram uma história jornalística. Provável sinal de que ainda não estamos seguros ao usar recursos visuais como o vídeo e infografias. Tirando as exceções de praxe, somos conservadores. Demais.

Mas Michael Gold, da editora que publica, entre outras, a revista PC World, tem uma visão bastante específica sobre o assunto. E coloca o texto acima de tudo. Segundo ele, a audiência é “preguiçosa, egoísta e impiedosa”. Gold cita um dado impressionante da navegação em home pages: que ela não passa de 30 segundos por usuário até o próximo clique. É nosso público querendo chegar o mais rápido possível ao ponto que lhe interessa.

Para isso, o texto é fundamental. E o argumento se baseia na busca, feita por palavras. E a busca é o principal acesso a tudo na internet hoje.

Num vídeo muito curto (menos de dois minutos), ele mostra algumas opções para satisfazer a essa audiência. Como usar títulos em no máximo 65 caracteres, e imagens menos pesadas nas páginas (evidentemente para acelerar o acesso ao conteúdo).

É aquela história: nada é certo ou errado. Tudo pode ser usado num determinado momento. Eu sou um dos defensores do jornalismo visual e de novas experimentações. Mas é inegável a clareza e objetividade que o (bom) texto podem proporcionar aos nosso clientes.

EUA endurecem regras para posts patrocinados

A Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) tomou uma decisão importante no que diz respeito ao uso desenfreado do post pago na blogosfera, o popular jabá.

A partir de agora, qualquer pessoa que possua um blog precisa notificar claramente seu leitor se o texto que escreveu avaliando produtos e serviços foi motivado por dinheiro ou presentes de fabricantes e fornecedores.

A medida vale ainda para comentários em mídias sociais, talk-shows no rádio, tv e internet e anúncios em geral. Quem não aderir à transparência poderá ser multado, informa o The Wall Street Journal.

É claro que o FTC tenta ser mais realista do que o rei (como identificar o autor de um comentário, por exemplo?), mas o conceito da decisão é acertado.

Eu acho, inclusive, que ela deveria ser estendida ao jornalismo, que até hoje não informa com retidão ao seu público quando um jornalista publica uma matéria viajando a convite _ou aceita outro tipo de presente.

Dizer “o jornalista fulano de tal viajou a convite da ciclano company” não resolve o problema. A questão é que os textos publicados após viagens só foram parar numa página porque um jornalista ganhou uma viagem. Não houvesse farra, não haveria “pauta”.

Ainda creio num sistema que exponha claramente os objetivos por trás de uma reportagem publicada ou levada ao ar por veículos jornalísticos.

Quem disse que a internet é infinita e de graça?

É uma percepção das pessoas que a internet, além de ser infinita, possui custo zero. Você publica o que quer, onde quer e sem pagar nada.

Nada mais mentiroso. E os recentes problemas na ferramenta de publicação dos blogs do UOL (quem tem um e não teve problemas que atire a primeira pedra) ou a parada do Twitter nesta quinta-feira estão aí justamente para lembrar a gente que existe um limite para a expansão e manutenção da rede: o servidor _isso sem contar que os HDs têm, entre outras coisas, alumínio e cobalto, materiais absolutamente finitos.

Quanto mais produção on-line, mais e potentes servidores serão necessários para manter a internet funcionando normalmente. E isso é totalmente físico.

Para mantê-los, alguém está investindo muito dinheiro. E terá de investir muito mais para manter essa engrenagem rodando.

As retrógradas ‘edições eletrônicas’ dos jornais

O jornalista André Deak fez, há algum tempo, uma crítica bastante pontual ao sistema Flip Page, adotado recentemente pela Folha de S.Paulo para exibir sua edição na web _e há muitos anos por diversos outros jornais.

A questão sobre o flip é justamente o fato de ser uma reprodução pura simples de um produto impresso, neste caso apenas transposto para a web. Os defensores desse sistema dizem que é isso, exatamente, o que buscam esses usuários.

Deak torce o nariz. “Ainda assim é possível criar outro lay-out, específico para a internet, mais interativo e com mais usabilidade do que a simples reprodução das páginas impressas”.

Verdade. E o pior é que o Flip até tem alguns recursos, mas que muitas vezes o leitor não percebe, como a inclusão de links (a própria Folha tem links associados dentro daquelas páginas, como em remissões de textos do impresso que levam ao site do jornal). Você já percebeu?

O texto critica a Folha pelo atraso em adotar a tecnologia, disponível desde 2002, mas também por essa insistência de emular e perpetuar linguagens anteriores, quando o que temos pela frente sugere muito mais dinamismo e criatividade.

Concordo com absolutamente tudo.

Curso de jornalismo da USP atrai 25% menos gente

Curso mais concorrido da Fuvest no ano passado (uma relação de quase 42 candidatos por vaga), Jornalismo caiu para 32 postulantes a cada cadeira escolar neste ano _uma procura 25% menor.

O vestibular, que seleciona candidatos a USP, Santa Casa e Academia do Barro Branco, teve justamente essa instituição policial como dona da vaga mais concorrida (quase 46 pessoas por lugar na sala de aula).

O porto seguro de uma carreira pública (ainda que a de oficial militar, aparentemente árdua e pouco reconhecida) tende a atrair cada vez mais gente.

Se a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão tem a ver com a redução da procura pelo curso universitário, e fosse só por isso, estaria plenamente justificada.

Precisamos de menos gente nas faculdades de jornalismo. É um passo para mudar o conceito fast-food e investir no pessoal e intransferível.

A faculdade de jornalismo tem de ser procurada por ser reconhecidamente capacitadora (profissional e intelectualmente).

Tudo menos ser apenas o pedaço de papel que dá o passe para exercer um ofício. Essa era acabou, felizmente.

Ficção ajuda o jornalismo a refletir sobre seu papel na sociedade

A trilogia “Millenium”, do jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), traz como legado à nossa profissão uma belíssima discussão de sobre como salvar não os jornais, mas a função social do jornalismo.

No final de semana, o espanhol El País publicou interessante artigo do catedrático Jaume Guillamet que analisa como a ficção nos ajuda a compreender a dimensão (e a relevância) de nosso trabalho. Ou, pelo menos, daquilo que deveria ser o nosso trabalho.

Na obra, Mikael Blomviskt _à frente de uma pequena revista à margem do mainstream_ se dedica a revelar as trapaças e desmandos de grandes corporações multinacionais. Dá vários furos na concorrência e vira uma espécie de celebridade, quando cai em desgraça porque seguiu, numa das reportagens, uma pista falsa.

Enquanto isso, Larsson narra o burocrático trabalho de TVs e grandes jornais, que tratam apenas de ser meros amplificadores da atuação policial, isentando-se de cumprir seu papel (encontrar a versão “definitiva” para os fatos).

Essa coisa de seguir fontes policiais e adotar o jornalismo declaratório (da qual nosso mundo está cheio, em todos os sentidos) a gente costuma saber muito bem onde dá: em casos como os da Escola Base, talvez o maior erro da imprensa brasileira na história.

World Press Photo disponibiliza arquivo de 54 anos

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O World Press Photo disponibilizou on-line, enfim, seu arquivo histórico de 10 mil imagens, entre elas as fotos vencedoras do maior prêmio mundial para fotojornalistas.

São registros desde 1955, e muitos deles se tornaram ícones de toda uma geração, como a imagem acima, de Charlie Cole, que marcou o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989.

Olimpíada-16 e Copa-14 dão sobrevida aos jornais impressos brasileiros

Repare na quantidade de anúncios dos jornais impressos deste sábado relacionados à escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

A Folha de S.Paulo, por exemplo, editou um caderno especial de 20 páginas _nenhuma delas “limpa”, como falamos no jargão (ou seja, todas com anúncios, vários de página inteira).

Somada a realização da Copa do Mundo de futebol, em 2014, estes próximos sete anos com direito aos dois maiores eventos esportivos no país prometem ser de bonança para o jornalismo impresso, ainda o porto seguro das verbas publicitárias (públicas e privadas).

Pela amostra dos diários deste sábado, os periódicos de papel brasileiros terão pela frente um período bastante auspicioso do ponto de vista de acúmulo de receitas. É um respiro num cenário de crise, enxugamento e queda de circulação.