Arquivo do mês: setembro 2009

O dia em que o jornalismo cidadão foi notado

Nova York arrasada: foto do acervo do museu que lembra o maior acontecimento jornalístico de todos os tempos _e também o mais registrado por não jornalistas na história

Nova York arrasada: foto do acervo do museu que lembra o maior acontecimento jornalístico de todos os tempos _e também o mais registrado por não jornalistas da história

É consenso acadêmico que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, mais especificamente os que tiveram o World Trade Center como alvo, são o evento mais registrado de todos os tempos. Foi o momento em que todos os olhos do mundo estavam voltados para aquelas duas torres glamourosas que, de repente, ruíram.

“Dizem que 11/9 foi o acontecimento mais registrado digitalmente em nossa história. E nós estamos convidando as pessoas a nos ajudar a contar essa história”, conta Alice Greenwald, diretora do museu que recordará a data _e que será inaugurado apenas em 2012.

Porém já está no ar, sob a chancela da curadoria do novo museu, um site provisório com centenas de registros dos ataques, num belo exemplo de convivência pro-am _material profissional e amador mesclado, jornalistas e testemunhas contando juntos um fato histórico que mudou a humanidade.

O museu tem um projeto, o Make History, que conclama os cidadãos a encaminhar registros que, seja por descuido, esquecimento, falta de iniciativa ou luto familiar, estejam depositados em algum cartão fotográfico ou disco rígido.

O material que já está no ar é muito bom e nos relembra, fortemente, o dia em que o jornalismo cidadão foi notado. É um momento decisivo para o que viria a acontecer ao próprio jornalismo nos anos seguintes.

A coleção tem registros não mostrados na televisão, como restos de corpos, uma poltrona de avião, fotos de família. Arrasador.

Mas um museu sempre quer mais relíquias.

Nada mais adequado que recorrer a quem melhor cobriu o fato _o cidadão, atônito diante do cataclisma.

Percepções sobre o jornalismo on-line: o Manifesto Internet

Já foi traduzido para o português (e outros sete idiomas) o trabalho de 15 blogueiros alemães que se transformou no “Manifesto Internet“, uma lista de 17 percepções sobre o funcionamento do jornalismo on-line hoje e a plataforma que o acolheu.

Vale a penar perder um tepinho lendo o receituário. Não é uma bobagem com recomendações de autoajuda para você tirar seu veículo (e seu trabalho) da crise.

São, como eu disse, boas percepções sobre o que a internet fez com o jornalismo _e o que o jornalismo pode fazer com ela.

Eu gosto muito do item 16: “A qualidade permanece como a mais importante das qualidades”.

É isso que a gente não pode perder de vista.

O que é jornalismo em seis volumes e 3 mil páginas

Enciclopédia, uma barreira de livros: voltei aos tempos da Barsa

Enciclopédia, uma barreira de livros: voltei aos tempos da Barsa

É emblemático: o jornalismo acaba de ganhar uma enciclopédia. Um enciclopédia mesmo, em papel _e bota papel nisso: são seis volumes, 3 mil páginas e 350 verbetes assinados por acadêmicos.

É como se eu voltasse ao tempo da Barsa e seus vendedores de porta em porta (eu vi, e negociei, com esses caras, hoje extintos).

“Várias editoras ainda investem em trabalhos multiautorais e multivolume considerando que edição e design cuidadoso permanece tendo valor mesmo na era eletrônica”, conta Christian Sterling,  jornalista e professor da Universidade George Washington, nos EUA. Ele passou quatro anos debruçado nisso.

A pesada e espaçosa coleção sai agora, no final do mês, sob o selo da Sage. Preço: US$ 795, mas com a promoção de lançamento, custa módicos US$ 630.

Vale quanto pesa?

Não dá para deixar de pensar que, enquanto discutimos novos formatos jornalísticos e empacotamento otimizado para notícias no ambiente on-line, alguém aparece reunindo toda essa discussão numa coisa anacrônica como uma enciclopédia impressa.

Ao mesmo tempo, se a questão é só de plataformas, tanto faz.

Mas confesso que me choca ver essa barreira de livros que compõem a coleção.

Sterling avisa que a obra estará disponível on-line (onde enfim poderá ser consultada), mas não esclarece em que condições.

Vou me beliscar pra ter certeza de não estar sonhando.

Começou o ‘ou dá ou desce’ no jornalismo diário

Começou o “ou dá ou desce” no jornalismo impresso do hemisfério norte _por enquanto é só por lá, nossa sentença chegará em mais alguns anos.

O La Presse, “maior jornal em francês do continente americano” (como se isso fosse alguma coisa), apresentou à sua equipe o dilema: ou aceita aumento da jornada de trabalho e perda de benefícios ou o jornal fecha as portas em 1º de dezembro.

O corte de custos presumido pelo veículo para garantir sua sobrevivência é de US$ 11 milhões, incluídas aí ao menos 100 demissões num total de 700 funcionários.

No Brasil, este tipo de barganha não é possível, o que torna ainda mais criativa a tarefa de pensar como empresários e jornalistas negociarão num cenário de terra arrasada.

Desde Getúlio Vargas, não se pode rebaixar salários ou regatear o cumprimento de obrigações trabalhistas _conte nos dedos das mãos os países que dão essa salvaguarda.

Como nós somos eles amanhã, há de se pensar: faz sentido flexibilizar as leis que regem o contrato capital-trabalho, e dar uma chance à redução de danos do desemprego, ou o melhor é brigar por direitos consolidados?

Novas narrativas: a imagem chocante da guerra

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A fotógrafa Julie Jacobson, da Associated Press, se viu diante de um dilema mês passado, quando acompanhava uma incursão do exército americano no Afeganistão e um marine foi atingido por um foguete. Ferido gravemente, não resistiu.

As fotos só foram divulgadas agora.

Julie não interferiu na ação e, à distância, registrou a agonia do soldado e a tentativa, em vão, de salvá-lo. Há quem pergunte como é possível se deparar com situações assim e não correr em socorro da vítima. São os que não conhecem o jornalismo.

Os que conhecem sabem perfeitamente que a melhor maneira de ajudar alguém é registrar fielmente um fato, e contextualizá-lo, para que se entenda por que ele aconteceu.

A história completa de Julie e seu furo de reportagem estão num audio slideshow forrado de imagens bacanas e narração bastante satisfatória do ponto de vista de uma reportagem.

É sobre isso que estamos falando em termos de novas narrativas jornalísticas.

Alguns ótimos exemplos de bom jornalismo visual

Trabalho do brasileiro Gerson Mora no portfólio do Visual Editors

Trabalho do brasileiro Gerson Mora no portfólio do Visual Editors

Não, o jornalismo visual estático não morreu. Ainda que tenham diminuído os espaços para sua veiculação _claro, os produtos impressos passam pela maior crise de sua história.

Aqui, numa cortesia do Visual Editors, você confere o que de melhor está sendo feito no mundo para transmitir informação via imagens.

Tem muita coisa nesse portfólio eletrônico, vale a pena dar uma olhada detalhada.

O cara que derrubou a mesa ao vivo

O jornalista Ney Gonçalves Dias despenca com uma mesa ao vivo, no pioneiro programa TV Mulher: sim, nós também falhamos

O jornalista Ney Gonçalves Dias despenca com uma mesa ao vivo, no pioneiro programa TV Mulher: sim, nós também falhamos

Sábado virou um pouco um dia do estranho, do bizarro e do inesperado no Webmanario _por sinal, essa deixa “estranho, bizarro, inesperado” era do programa Acredite se Quiser, exibido pela extinta TV Manchete nos anos 80.

Com o ator Jack Palance como anfitrião, a série exibia anomalias como comedores de bolas de sinuca e maridos de elefantas, mas também competentes reconstituições dos passos de personalidades históricas.

Na mesma época, eu também assistia (era um casa, a minha, cheia de seres humanos do sexo feminino) a TV Mulher, programa segmentado da Globo pioneiro na televisão brasileira.

A imagem daí de cima mostra um momento, que vi ao vivo, marcante para quem, já na época, queria ser jornalista: Ney Gonçalves Dias, que era justamente a voz mais jornalística do programa (se bem que Marília Gabriela ia bem, e Clodovil roubava a cena), simplesmente despencou com uma mesa em pleno ar.

Posso garantir que, quem via pela TV, ficou constrangido à máxima potência.

Foi quando percebi que nós, jornalistas, somos falíveis.

E como nossa imagem é nossa própria credibilidade.

Pra mim, Ney Gonçalves Dias virou o cara que derrubou a mesa ao vivo.

Datablog: uma base de dados colaborativa

datablog_guardianO Guardian tem um produto muito bacana, o Datablog.

A ideia é reunir, numa plataforma com ordem cronológica reversa e diálogo via comentários, toda quantidade de dados que possam ser úteis para a interpretação de uma notícia _papel que o jornalismo se atrasou em assumir.

Dados atualizados sobre a epidemia de gripe suína, o mercado global da pesca, as reservas de combustível, o tamanho do buraco na camada de ozônio…

É tudo open source, ou seja, pode ser copiado e aperfeiçoado pelos usuários, que por sua vez são convidados a compartilhar as descobertas que fizeram partindo do conteúdo postado no blog, gerenciado pela redação do jornal britânico.

Seu índice remissivo, porém, é pouco amigável e cumpridor de seu papel.

Mas já que o assunto são bases de dados, lembrei do jornal holandês NRC Handelsblad e seu ótimo mapa interativo da crise econômica. Tudo disposto de forma simples e bem rápida de achar.

São dois ótimos exemplos de boas respostas de jornais impressos às possibilidades da produção de conteúdo na web.

Os sem-ética atacam novamente

Impressionante o dado de uma pesquisa do Curley Center for Sports Journalism da Universidade da Pensilvânia. Conduzido por telefone, o levantamento ouviu 285 repórteres esportivos em jornais e sites americanos.

Nada menos do que 40% deles admitiram apostar dinheiro em eventos esportivos. O detalhe é que 5% ainda fizeram a ressalva de que só apostam em esportes que eles cobrem…

Nem precisa dizer que há um claro conflito ético no comportamento (jornais como o New York Times, inclusive, já o proibiram expressamente).

Mas a editoria de esportes é pródiga em romper códigos éticos, a começar pelos próprios repórteres-torcedores que influenciam diretamente pauta e edição de 100 entre 100 veículos.

Será que o leitorado percebe? Não sei, se houvesse um ranking do nível de exigência do consumidor de notícias, será que a editoria de esportes ocuparia o patamar mais baixo?

Aí é que são elas. Tem mais gente apostando dinheiro em “esportes” que cobre em todas as editorias do jornalismo.

Isso é perceptível para o leitor?

O jornal de 17 milhões de exemplares por dia

Escrito em hindi, o Dainik Jagran atinge 55 milhões de leitores por edição

Escrito em hindi, o Dainik Jagran atinge 55 milhões de leitores por edição

Durante décadas (e isso persiste até hoje) a resposta à pergunta “qual o jornal de maior tiragem no mundo?” era fácil: o japonês Asahi Shimbun e seus 8 milhões de exemplares diários.

Pois estamos todos desatualizados.

O diário mais vendido do planeta, e já há algum tempo, é o indiano Dainik Jagran (“A Verdade”), que põe nas ruas todos os dias impressionantes 17 milhões de cópias _um alcance de quase 55 milhões de leitores. O jornal é escrito em hindi, língua dominada por 41% dos 1,2 bilhão de habitantes do país asiático.

O Financial Times relata que o negócio do jornal anda de vento em popa, impulsionado por um crescente grupo de engajados políticos e recém-alfabetizados: ele faturou 15% a mais no último quadrimestre, com relação ao lucro auferido no mesmo período do ano passado.

Sim, a Índia (como Brasil e China) ainda não conhece a crise dos jornais impressos como se vê nos EUA e na Europa. Claro, há milhares de pessoas saindo da linha de pobreza todos os dias e conquistando só agora acesso a informação paga.

Os números indianos são especialmente pedagógicos nesse aspecto: em 1976, só 35% da população era alfabetizada. Hoje, esse número dobrou.

Longa vida ao Dainik Jagran.