Arquivo do mês: agosto 2009

Só o deadline está sempre na mesma

Comecei no jornalismo diário em 1990, na Folha da Tarde, jornal que mais tarde, numa quase fusão com o Notícias Populares, gerou o Agora (o NP, na verdade, fechou dois anos depois da mudança de nome da FT, mas isso proporcionou uma absorção de parte de seu cardápio pelo único jornal popular que seria publicado dali por diante pelo Grupo Folha).

Era uma época bem diferente.

Pra começar, na entrada da redação tinha um pote forrado de fichas telefônicas _claro, não havia celular, e contato entre base e repórter só era possível se este último fosse a um orelhão dar sinal de vida.

Muitas vezes, esta ligação servia como modo de transmissão da matéria. Explico: muitas das coisas que fazíamos na rua tinham de ser simplesmente ditadas, porque não havia outro modo de passar a informação à redação.

Ficávamos mais tempo na rua, disparado. A verdade é que a rua era o refúgio do repórter. Hoje, monitorado o tempo inteiro, virou um calvário documentado em tempo real.

O contato externo com o jornal era exíguo. Ou envolvia um mensageiro portador de rolos de filmes, documentos e manuscritos _seja motorista, amigo fazendo um favor, o que seja_, ou era todo feito por telefone. Jornais mais diligentes usavam radiotransmissores, conhecidos como walkie-talkie (o fax, diga-se, apareceria pouco depois).

O dia a dia de produção do jornal envolvia ainda tarefas demoradas, como o past-up (a montagem manual, com cola Pritt e estilete, de cada página da edição), a transformação daquilo em chapa, a preparação da rotativa, bem menos expedita do que nos tempos de hoje, e a própria rodagem da edição _nem é preciso dizer que o equipamento atualmente disponível para as editoras imprime até dez vezes mais rápido a mesma quantidade de papel.

Você já deve estar aí rindo de tanta dificuldade, pensando em como era fazer jornalismo na era da pedra lascada (e olha que nem citei a inexistência da internet _ou do Google, como queira).

Mas tem uma coisa que não mudou em nada de lá para cá: o horário do fechamento.

É sério, alguém, me explica: por que, com tanto avanço tecnológico notório e a olhos vistos, o deadline, o maldito deadline, é praticamente o mesmo em 2009 como era em 1990?

Não é balela, eu vi: em alguns casos, como o das edições de domingo, o limite para concluir a edição era mais extenso há 19 anos do que atualmente. É, na minha eleição, o maior mistério que permeia o jornalismo impresso.

Se todos os gargalos se abriram, porque só o horário do fechamento não reagiu?

O que é uma cidade sem um jornal?

Retrato sombrio: uma banca de jornal nos EUA (Foto: Bruce Gilden/Magnum, for The New York Times)

Retrato sombrio: uma banca de jornal nos EUA (Foto: Bruce Gilden/Magnum, for The New York Times)

A Revista do New York Times traz em sua edição mais recente a história de Brian Tierney, que toca na corda-bamba dois jornais diários na Filadélfia (Inquirer e Daily News).

É um belo relato dos nossos tempos. Para ler com calma.

Sim, a culpa é toda da internet

Alan Mutter tem um contraponto muito bacana à tese de Jeff Sonderman, que sustenta que as notícias sempre foram de graça e, por isso, a culpa pela crise dos jornais não é da Internet e seu modelo de distribuição gratuita de informação.

Mutter, jornalista veterano e editor de um dos blogs mais relevantes sobre o futuro do jornalismo (Reflections of a Newsosaur), realizou um levantamento que liga, e diretamente, o uso da rede ao declínio da circulação dos produtos impressos.

Pelo seu estudo, países em que a adesão à banda larga residencial supera 20% da população assistem, simultaneamente, à queda de tiragem e faturamento publicitário de seus veículos de papel. Quando o número chega a 30%, o sinal vermelho se acende e a redução passa a ser brutal.

Nos Estados Unidos, ressalta Mutter, o forte movimento para baixo das circulações começou a ser notado em 2003, quando o acesso à banda larga nas casas americanas já era de 23%, e se intensificou a partir do ano seguinte, quando bateu em 31%.

Hoje, 60% dos americanos (eu atualizei o dado do texto original de Mutter, escrito em maio de 2008) possuem uma conexão rápida em seu domicílio. E os jornais, que alcançavam um terço dos habitantes dos EUA em 1946, agora têm um share de apenas 18%.

Mutter não se restringiu aos Estados Unidos: segundo ele, a tendência do “de 20% para cima em banda larga residencial, menos jornais na rua” se repete em países como Alemanha, Canadá, Holanda e Reino Unido.

Preço alto e limitação de acesso à internet em países pobres ou em desenvolvimento explicam, de acordo com ele, porque o negócio jornal ainda está no azul em lugares distintos como Brasil, China e Índia _além da franca expansão econômica, que tirou cidadãos da linha de pobreza e deu às suas economias uma nova classe de consumidores.

É questão de tempo, diz Mutter.

No Brasil, falta pouco para testarmos a regra dos 30% (porcentagem em que a coisa, de fato, fica feia para os impressos): hoje, 16% dos brasileiros possuem banda larga em casa. Até o final de 2009 eles deverão ser 20%. Estima-se que alcançaremos a “linha de Mutter” em 2011.

Está chegando a hora.

A cozinha de Ricardo Kotscho

Quem acha que, no jornalismo, só o repórter é importante não pode deixar de ler o perfil que Célia Chaim fez, para o Jornalistas&Cia, de Ricardo Kotscho. O especial tem até receita de goulash.

Você bem sabe que eu discordo da afirmação, mas não há dúvida alguma que, entre os repórteres, Kotscho é o maior.

Avesso às novas tecnologias, atualmente ele assina uma coluna eletrônica no portal Ig.

Não, a culpa não é da internet

Interessante a teoria de Jeff Sonderman, para quem as notícias sempre foram de graça. Ou seja: a culpa pela crise dos jornais não é da Internet e seu modelo de distribuição gratuita de informação.

De fato, todos os registros sobre circulação de jornais nos Estados Unidos mostram uma tendência de declínio nas tiragens já na década de 80, antes mesmo da chegada da internet (até então um recurso apenas militar e acadêmico) ao circuito comercial.

O debate voltou à tona após o magnata Rupert Murdoch anunciar que, “em meses”, seus jornais vão cobrar por notícias distribuídas on-line, o que na visão de Jeff Jarvis, professor da Universidade de Nova York e um dos principais estudiosos sobre o futuro do jornalismo, “abre as portas” para a concorrência.

Para Jarvis, cobrar por conteúdo é um tiro no pé porque onera as empresas em custos de marketing e serviços de suporte ao assinante, além de potencialmente reduzir sua audiência _e, consequentemente, valor e volume de seus anúncios.

Para piorar, o paredão da notícia paga exclui seu material das máquinas de busca e também da linkagem externa, outro potencial anabolizante de tráfego.

A história da economia dos jornais nos conta que, efetivamente, o produto era pouco popular até 1830, quando houve o advento do que ficou conhecido como “penny press” (tabloides muito baratos que custavam “uma moeda”).

Com o preço baixo, os jornais atingiram mais e mais leitores. A situação imediatamente atraiu um leque variado de anunciantes. E foi deles que veio a verba que cobriria, pelos séculos seguintes, os principais custos de um produto desta natureza  (equipe, instalações, impressão e distribuição).

Neste cenário, as assinaturas foram capazes de dar conta apenas dos custos marginais de todo o processo. Em resumo: se o dono de um jornal quisesse compensar isso aumentando o valor da subscrição, imediatamente afugentaria leitores.

É basicamente o debate que está acontecendo agora no jornalismo on-line. Como não conseguem fazer dinheiro com anúncios, os donos de jornais decidiram carregar a mão no valor da assinatura.

Funcionará? Já sabemos de antemão que não.

Frilas criam shopping center da notícia

Demitidos pelo Los Angeles Times (que promoveu um banho de sangue com mais de 500 cortes até anunciar, com orgulho, que sua operação on-line se banca) criaram um shopping center da notícia cujo principal diferencial é a experiência.

Explico: a ideia do The Journalism Shop não é nada revolucionária. Trata-se de uma cooperativa de freelancers (não apenas jornalistas, mas designers e relações públicas), reunidos num site, onde oferecem seus serviços.

A lista é extensa: apuração, reportagem, livros, edição, design, marketing, etc.

A diferença aqui é quem oferece o serviço. “Somos jornalistas experientes demitidos pelo Times. Temos veteranos em jornalismo político, matérias investigativas e cobertura de moda. As perdas do Los Angeles Times podem ser seu ganho”.

Num tempo em que a média de idade das redações (de todas elas, em todo o mundo) despencou vertiginosamente, será que a experiência voltará a ser um bem valorizado?

Onde estão os fotógrafos, que fogem do papo da convergência?

Por que a fotografia não participa com a mesma intensidade das discussões que nós, jornalistas de texto e de infografia, há tantos anos, travamos sobre as mudanças que a tecnologia impôs ao exercício da profissão?

Mais: qual motivo leva o gestor de uma integração de equipes a não levar em conta (ou exigir) a participação do fotógrafo no processo? Quer dizer que o trabalho mudou para todo mundo, menos para ele, o “retratista” (como dizemos nós, os canetinhas)?

Digam-me o que leva a fotografia a ser a única plataforma de narrativa jornalística a não ter se preocupado com novas formas de contar uma história, a nem mesmo ter se animado a incentivar seus profissionais a fazer vídeos, tarefa cobrada do povo do texto, mas jamais discutida com quem, de fato, tem muito mais afinidade com a “nova” atribuição do profissional multimídia?

E editar slides (ou galeria de fotos, como queira) com coerência editorial e objetivo de complementar o fato descrito em texto?

Tudo que eu estou afirmando acima, é claro, tem suas exceções. Mas é notório que o engajamento das editorias de fotografia, e aqui falando exclusivamente de jornalismo, tem sido pra lá de pífia. É como se não tivesse a ver com a história, com as novas habilidades exigidas do jornalista. Virou uma função à parte, vivendo num espaço que não existe mais.

A versão francesa da revista on-line Slate notou exatamente isso. Que o fotógrafo abraçou, em causa própria, o domínio do tratamento (ou manipulação, em português sempre fica mais severo) de imagens, uma característica da era da tecnologia.

Mas abandonou todo o resto.

O fotógrafo, via de regra, não dialoga com o público e desempenha uma única função. A mesma que fazia quando a imprensa em papel possuía a monopólio da informação e ditava as regras.

Nem mesmo velhos conceitos característicos da web, como o uso de imagens em tamanho menor que as versões impressas _um convite a novos enquadramentos e edição (o famoso “corte”)_ estão claramente absorvidos.

Mas tudo isso vale só para a redação. No âmbito pessoal, estrelas do Flickr e do Facebook, eles tendem sempre a ser melhores do que no dia a dia. Parece que entendem, no âmbito pessoal, a mensagem dos novos tempos.

Com a palavra, os fotógrafos.

Jornal dominical mais antigo do mundo está ameaçado

O jornal de domingo mais antigo do mundo (sua primeira edição foi às ruas em 4 de dezembro de 1791) está ameaçado.

As perdas do Guardian, proprietário do bicentenário The Observer (jornal publicado só aos domingos na Inglaterra), teriam feito a empresa considerar enxugar ou mesmo extinguir o vetusto semanário.

O rombo do grupo foi de R$ 227,3 milhões no ano fiscal de 2008, encerrado no primeiro semestre de 2009.

Segundo o Financial Times, ainda não há decisão sobre o futuro do Observer, mas a alternativa que prevê seu fechamento está sendo debatida.

Correio Braziliense faz a lição de casa da convergência

Em plena quinta-feira, uma cabrita vira contracapa do caderno de cidades: a fórmula contra o hardnews do Correio Braziliense

Em plena quinta-feira, uma cabrita vira contracapa do caderno de cidades: a fórmula contra o hardnews do Correio Braziliense

O Correio Braziliense fez bastante bem a lição de casa da convergência de conteúdos de suas edições impressa e on-line em seu novo projeto gráfico, que estreou no mês passado. A análise que se segue tem como base a edição de quinta-feira (30/7/2009).

A promessa de relativizar o “aconteceu ontem”, ou seja, o que já foi divulgado no dia anterior pelo site do veículo, não é levada a ferro e fogo. A retranca “GDF recorre ao STF para ter financiamento”, segundo texto em importância na página 30, é prova cabal: foi publicado pela versão eletrônica não no dia anterior, mas em 28/7, via feed da Agência Brasil.

Aconteceu anteontem: notícia 'velha' também ganha protagonismo na edição impressa

Aconteceu anteontem: notícia 'velha' também ganha protagonismo na edição impressa

A aposta em conteúdo difenciado, promessa do diretor de redação, Josemar Gimenez, se comprova na contracapa do caderno de Cidades, a cargo do side “Drica, a cabrita que reina“, história sobre animal querido e “tratado como gente” em Ceilândia do Norte.

“O momento de mudança é agora. Temos que apresentar um diferencial para o nosso leitor. Não podemos nos limitar a reproduzir em nossas páginas o que aconteceu no dia anterior. Vamos priorizar a exclusividade do conteúdo”, diz Gimenez em texto divulgado pelo Correio na ocasião da estreia da reformulação.

A rigor, o hardnews se restringiria à seção “Deu no www.correiobraziliense.com.br”, espalhado pelo jornal impresso. Porém é conteúdo que, de fato, não mereceria mais do que simples notinhas.

Por outro lado o jornal também está produzindo, a olhos vistos, bem mais suítes do que seus concorrentes, prática que anda bastante esquecida na imprensa brasileira. A suíte é outra alternativa, além de matérias frias, para a fugir ao relato do dia anterior a que parecem condenados todos os jornais do planeta.

Há também muitas remissões no produto impresso para conteúdos multimídia no site, prática que se reconhece ineficiente mas, no âmbito institucional, é absolutamente necessária.

É difícil mesurar qual a quantidade de leitores do jornal que, incentivados por um link publicado no produto, corram à web para complementar a informação lida pouco antes. O jornal espanhol El Pais já fez uma interessante experiência ao publicar, no jornal, url que permaneceu escondida na versão eletrônica e, teoricamente, só podia ser acessada por quem tinha lido a notícia impressa. Num universo de 400 mil leitores do periódico em papel, apenas cinco (isso mesmo) tiveram a curiosidade de explorar o material suplementar na rede.

Conteúdo remissivo a dispositivos móveis: nada novo, mas ainda ousado

Conteúdo remissivo a dispositivos móveis: nada novo, mas ainda ousado

A incorporação de recursos como o QR Code, que apesar de não ser inédito provoca sempre uma boa sensação de se que está na vanguarda, é outro ponto alto do projeto.

Curioso que algo tão novo e ainda pouco explorado conviva com o velho conceito de hiperlink impresso, ou seja, palavras destacadas que, via fio, levam a mais conteúdo _diga-se, usada como solução de legenda de foto (e só), funciona muito bem.

O “uso intenso de peças gráficas e infografias”, promessa do release de lançamento da reformulação, não foi notado: havia uma única infografia em toda a edição de 30 de julho de 2009. E isso que o jornal, que sempre priorizou este item, reforçou o time da edição impressa cooptando até mesmo o único designer que tinha designado para servir à edição on-line.

Com altos e baixos, como tudo na vida costuma ser, o Correio Braziliense começa bem essa incrível aventura de repensar o jornal diário. Agora queremos saber quem serão os próximos a ousar.

Moribundo, teletexto ainda sobrevive

Outro canal: a home do serviço de teletexto da emissora de TV portuguesa RTP

Outro canal: a home do serviço de teletexto da emissora de TV portuguesa RTP

A convergência entre narrativa impressa e televisão só é possível via promoção cruzada, ou seja, uma mídia sugere conteúdos da outra para sua audiência, certo? Errado.

Criada nos anos 70, a tecnologia teletexto permite uma experiência verdadeiramente suis-generis a quem assiste TV. Na prática, funciona assim: o usuário clica na função TXT em seu controle remoto e, surpresa: a tela se transforma num tosco navegador de notícias impressas, remetendo aos primórdios da internet.

“Sistema de transmissão de texto por meio da televisão. Utiliza a parte que é disponibilizada pelo sinal televisivo, permitindo ao receptor/utilizador a escolha de páginas” é uma boa definição técnica para este dinossauro que sobreviveu ao choque com o asteroide.

O homem deu ao teletexto um uso mais nobre: é por meio dele que se desenvolveu a função “closed caption”, essa sim bastante popular e útil ao telespectador.

Ancestral da web, o teletexto ainda resiste nos aparelhos de tv de pelo menos 30 países, especialmente na Europa _a Espanha, com 8 milhões de usuários, é um dos líderes do segmento. Porém a extinção é certa: na Grã-Bretanha, onde chegou a ser bastante popular, teve recentemente o funeral anunciado.

No Brasil, como relata completíssimo artigo de Lauro Teixeira, apesar de a tecnologia estar disponível (foi usada durante um tempo, por exemplo, pela Rede Globo), não houve interesse em difundi-la.

Não haverá mais tempo.