Arquivo do mês: julho 2009

TMZ, mais um pouco sobre o veículo que deu o furo do ano

A edição dominical do jornal espanhol ABC traz uma materinha interessante sobre o TMZ, site especializado na cobertura de celebridades “guindado a uma espécie de The New York Times” depois que deu o furo do ano: a morte de Michael Jackson.

No texto, o correspondente Pedro Rodríguez lembra que acompanhar a vida de famosos faz parte da própria história do jornalismo americano.

A questão com a TMZ, agora, é manter uma imagem mais jornalística do que a de caça-famosos que permeia seus quatro anos de vida.

Seu fundador, o advogado Harvey Levin, de 58 anos, diz que tudo é jornalismo.

O desespero com a perda do monopólio

É incrível a incapacidade de algumas pessoas compreenderem a evolução da conversação com o avanço tecnológico.

Ontem via um programa esportivo na Bandeirantes (sim, eu sou da antiga) que passou todo um trecho discutindo a comunicação pública do presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, sobre o desacordo com o técnico Muricy Ramalho.

O não negócio foi publicado via microblog (no Twitter, mais especificamente) na madrugada de sexta-feira _aliás, Belluzzo (que segue Britney Spears, isso é mais grave) promete anunciar o nome do novo técnico na própria ferramenta.

Vai daí que o entendimento do povo da Band é que o economista-dirigente fez “uma molecagem”. “Twitter é coisa de criança, meu fillho adolscente me perguntou hoje cedo se eu queria ter uma conta no site”, afirmou um jornalista (sei quem é, mas não vale a pena notibilizá-lo).

Quer dizer que mais uma vez está se discutindo o mensageiro, não a mensagem?

O ambiente de comunicação mudou, a imprensa deixou de ser o filtro universal entre os acontecimentos e o público, e jornalistas do mainstream insistem em ignorar isso?

Que diferença faz, sinceramente, se um anúncio oficial é feito via microblog ou entrevista coletiva? Eu explico: é que ele foi feito para todos, ao mesmo tempo, não apenas para um grupo seleto que se acostumou a monopolizar as informação.

Meu deus, está cheio de gente que simplesmente não quer enxergar. Jornalistas, não acordaram ainda, é?

De graça, Chris Anderson fala sobre o preço zero

O mais recente livro de Chris Anderson, avisa Sérgio Lüdtke na rede Interatores, já está disponível para download gratuito.

Fala exatamente sobre o zero, o preço que, segundo o autor, ajudou a internet a revolucionar o mundo.

A obra chega envolvida em polêmica porque Anderson, editor-chefe da revista Wired (quem melhor cobre tecnologia no planeta), copiou trechos inteiros da Wikipedia, sem citação, em partes do livro.

Desculpou-se depois, dizendo que houve “um erro de edição”. Seus editores prometeram a correção para a segunda edição.

Anderson ganhou notoriedade após “The Long Tail” ou “A Cauda Longa”, livro de 2004 no qual discorre com bastante propriedade sobre o rumo dos negócios em tempos de internet, especialmente pelo ponto de vista de oportunidades que a web proporcionou. O resumo é o fim dos hits, mas a venda de milhares de produtos distintos. Daí a cauda.

Depois disso o jornalista e palestrólogo virou alvo. Dizem que cria conceitos apenas para se beneficiar deles depois _no caso de “Free: The Future of a Radical Price”, a matéria que apresentou a ideia foi publicada numa edição da Wired distribuída, ao menos em parte, gratuitamente, em fevereiro deste ano.

No geral, os livros de Anderson valem pela ideia central. Tanto a cauda longa quanto o preço zerado, ao que me consta, são realidades. Apenas que as obras não se sustentam como leitura. Nem de profundidade nem acadêmica nem nada.

Checar os resumos publicados pela própria Wired costuma ser mais produtivo _e ter o mesmo efeito.

Pague para ser um repórter

Considerado a principal trincheira do jornalismo cidadão (eu adoro esse clichê), o site coreano Ohmynews _que só em 2009 já acumula prejuízo de US$ 400 mil (ou cerca de R$ 800 mil)_ agora aposta em doações para sobreviver.

É o próprio fundador e “presidente” da iniciativa, Oh Yeon-ho, quem relata o conto em carta postada na página. A doação é algo muito americano, pouco europeu, nada brasileiro (asiático, confesso, não sei).

Ele recorre a um discurso de “independência” e sugere que 100 mil leitores, doando cerca de US$ 8 mensais, poderiam manter o projeto de pé e, principalmente, menos dependente de publicidade. Pergunto-me, neste caso, se o produtor do conteúdo não é, em boa medida, seu leitor. Logo: pagar para trabalhar?

“Hoje”, diz Oh, “mais de 70% de nosso faturamento vem de publicidade”.

Eu torço o nariz quando o papo vai por aí. Porque toda a mídia formal amealha isso ou mais em anúncios. Porque os leitores, no máximo, pagam a assinatura ou a compra eventual em banca (e isso nunca garantiu a sobrevivência de ninguém).

Ao mesmo tempo, ser bancado por publicidade não pode ser motivo de alegação de falta de independência. Faz parte do jogo.

Sabem como é, o galo que canta primeiro tem culpa no cartório.

Aposto que a Ana Brambilla, especialista em Ohmynews, vai falar sobre o tema em breve.

A confiança do público nas notícias

Essa eu deixo totalmente nas mãos do sempre atento António Granado, que descobriu esse interessante estudo da Reuters sobre a confiabilidade de noticiário.

Recorrente, surge a queixa de que a imprensa não explica suficientemente bem os assuntos que trata.

A se pensar.

A última do diploma de jornalismo

Acaba de passar no programa de Sônia Abrão: “vultos em Neverland assustam fãs de Michael Jackson”, chamada seguida de imagens picaretas de qualquer pessoa passando dentro da casa e sendo filmada bem ao longe.

Com direito a entrevista de especialista e tudo.

Sônia Abrão tem diploma de jornalista, sabiam?

Mesmo sem estar jogando, tomei o cartão vermelho

A sensação é a mesma de se tomar um cartão vermelho sem ter entrado em campo: estou de férias, belo e faceiro, bastante distante (não totalmente separado) do computador e, de repente, fico sabendo que minha conta de microblog no site Twitter foi suspensa.

Daí toca descobrir o que aconteceu. A empresa falou em “erro humano”.

Ficou uma sensação de transgressão mesmo sem eu saber o que tinha feito…

Enfim, esse tipo de pane apenas nos relembra como é frágil o sistema de compartilhamento de dados, como um todo, na internet.

Do dia para a noite você vira vilão e fica sem acesso a informações colocadas no ar por você mesmo. Insano.

Conexão limitada…

… só me permite bater palmas para a definição de Alon Feuerwerker “o new journalism não existe, o que existe é o nariz de cera”.

Volto, se possível.

Ruy Castro disseca Gay Talese

Gay Talese esteve na Flip e, aparentemente, provocou furor neste sábado num debate ao vivo. Bombou na web, e não é por menos: o cara tem história para contar.

Aliás, o jornalista Mauricio Stycer registrou essa faceta do repórter-escritor americano. “Mario Sergio Conti faz perguntas. Gay Talese conta historias, mas não responde nada. Cansativo”, “tuitou” ontem Stycer_quem fez o melhor resumo da participação de Talese na Flip, ao menos no Twitter.

Mais notícias sobre Gay Talese e a Flip

Mas antes ele tinha falado bobagem embarcando na carona da morte de Michael Jackson. Ruy Castro, sempre solerte, não deixou passar e opinou com propriedade na Folha de S.Paulo de ontem.

“Será que, antes do new journalism, toda a imprensa escrevia mal?”

O problema é que Talese disse que a imprensa matou MJ. E quando Talese diz, supõe-se uma ciranda de consulta ao entorno dos personagens de suas notícias.

“Talese terá ouvido isso de Michael, do psiquiatra, da enfermeira ou da babá do artista? Ou será uma suposição?”, arremata o brilhante Ruy.

Pois é, nem há nada a acrescentar.

A internet que desaparece aos poucos

Jack Lail escreve preocupado, e com razão, sobre pedaços inteiros publicados na internet que estão simplesmente desaparecendo, como quadros e imagens que ferramentas como o sensacional (mas incompleto)  Wayback Machine são incapazes de guardar.

Desativar antigos servidores ou falta de cuidado na mobilidade e transferência de dados são os responsáveis, em boa medida, por páginas e mais páginas que somem diariamente na rede _inclusive os de sites jornalísticos, claro.

É engraçado, diz Lail, que o suporte digital, teoricamente muito mais adequado para arquivamento, em muitos casos tenha sido destruído por absoluta falta de interesse e cuidado. Enquanto isso, jornais em papel bem mais antigos estão chegando ao mundo digital graças a iniciativas como a do Google.

Hoje, é comum acessar notícias que dependem de quadros/artes (com ênfase estatística, portanto) que ficam absolutamente incompreensíveis sem as imagens. Com elas, se vai também a contextualização da notícia.

A web está sumindo. Pelo menos, em parte. Dá para fazer alguma coisa?

Com a palavra, os jornais.