Arquivo do mês: maio 2009

A poesia a serviço do jornalismo (!?)

Juan Ruiz Cruz, um dos fundadores do inquieto jornal espanhol El Pais, esteve na Folha de S.Paulo nesta semana conversando com a redação.

Quem conta é a Cristina Moreno de Castro, toda prolífica no Novo em Folha, um blog de verdade sobre ensino do jornalismo e mídia.

Não fui e explico o motivo: era das 19h às 20h, justamente o meu pico de fechamento…

Curioso que Cruz citou a poesia como um caminho para escrever melhor. A capacidade de sintetização do gênero é exemplar, em sua opinião. Eu, que nunca tinha pensado nisso, acho um disparate. Mas, quem sabe. Vale avaliar.

A ilustração e seu papel no jornalismo

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Relegada ao último plano, a ilustração tem, sim, seu lugar no jornalismo _provavelmente, até como gênero. Nunca teorizei isso, mas talvez valhesse a pena.

Transformar palavras em imagens é, claro, uma arte, mas uma arte comprometida com o noticiário e seu timing. Repare como os jornais, em geral em suas páginas de opinião, recorrem ao recurso.

É um luxo que só as publicações impressas podem fazer por você: traduzir artísticamente notícia e opinião (só pra não perder a piada e puxar a brasa para a minha sardinha, vou relembrar frase de Millôr que mostra o quão difícil é fazer o contrário: “Uma imagem vale mais do que mil palavras. Agora transforma essa frase em imagem”).

O ótimo La Buena Prensa entrevistou um ilustrador de jornais e revistas, Rafael Ricoy, para falar um pouco do metiê. E o cara é excelente ao dizer, logo de cara, que uma das principais características do ilustrador de veículos jornalísticos é a rapidez.

Aliás, eu acrescento que trabalhar sob pressão, e rápido, são dois dos itens mais relevantes num jornalista, seja qual função ocupe num diário.

As cinco obrigações do jornalismo com seu público

Texto de Sérgio Lüdtke na comunidade Interatores (feita sob medida para quem gosta de discutir novas tecnologias e jornalismo) disseca o papel do veículo jornalístico frente a sua audiência. Vale por uma aula.

É necessário reproduzir as cinco premissas básicas de Lüdtke. Ademais, elas são a própria linha do tempo do jornalismo.

Atender: Essa era a ação básica para satisfazer o público até o surgimento dos meios online. Você publicava um determinado conteúdo – que era interposto em uma página de jornal ou na grade de programação de uma rádio ou de uma TV – e era naturalmente percebido pela audiência daquele veículo. Você apenas zelava pela veracidade da informação e procurava apresentá-la da melhor forma possível.

Estimular: Com o surgimento dos meios digitais e a possibilidade de interação pelo próprio meio, a interatividade passou a ser um diferencial importante na comunicação. E para promover essa relação, os produtores de conteúdo passaram também a estimular a participação da audiência.

Ouvir: Depois de fomentar a participação da audiência, os produtores de conteúdo incluíram no seu job script a tarefa de ouvir o que essa audiência está dizendo. E quem presta atenção no que o público sinaliza, o conhece melhor, se pauta melhor e pode publicar conteúdos mais adequados a essa sua audiência.

Valorizar: Para garantir a continuidade desse processo de estímulo e atenção ao que o público manifesta, é necessário que as opiniões ou os conteúdos gerados pela audiência sejam valorizados. E a valorização aqui se dá com destaque, com crédito ou com veiculação desses conteúdos.

Perseguir: Agora precisamos também perseguir a nossa audiência e levar até ela o nosso conteúdo. Portanto, meu caro, deixe de lado seu constrangimento e vá aonde o povo está. Desenvolva uma mania de perseguição, entenda a necessidade de ter um bom conhecimento do seu público e identifique seus comportamentos e as tendências que ele segue.

Campeão em chamas

É o flagrante mais insólito de taça da história do futebol (Foto: Ricardo Nogueira/Folha Imagem)

É o flagrante mais insólito de taça da história do futebol (Foto: Ricardo Nogueira/Folha Imagem)

William, capitão do Corinthians, recebe o troféu de campeão paulista em meio a incêndio. Uma grande e rara cena.

Quando líamos jornais 1

Nova York, Harvard Club, 1940. Sob uma cabeça empalhada de rinoceronte, leitor se delicia com as notícias

Nova York, Harvard Club, 1940. Sob uma cabeça empalhada de rinoceronte, leitor se delicia com as notícias

“Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado”, diz Gay Talese

Em entrevista a Sylvia Colombo publicada neste sábado pela Folha de S.Paulo (só para assinantes), Gay Talese, 77 anos admite que fala “como um velho da profissão”.

Expoente do new journalism (movimento que empurrou a não ficção em direção à literatura), Talese diz que os jornais ajudaram o valor-noticia a despencar para zero ao liberarem seus conteúdos on-line. “É preciso cobrar pelo que se publica. Porque se trata de uma tentativa de encontrar a verdade necessária para a sociedade, e que tem um preço”.

O escritor se esquece que o conteúdo, agora, não é distribuído apenas por quem o produz. Ele é compartilhado na rede. Pelo seu próprio público. A cada dia mais rápido e por mais canais. É uma situação que não se pode mais deter. Se você não o disponibiliza sem ônus, alguém o fará.

Mas Talese (autor de célebres reportagens travestidas de obras literárias) mostrou conhecer muito bem a noção de filtragem, fundamental nestes tempos de informação tão abundante. “Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado. A internet está cheia de lixo”, afirma, com razão, ainda que a frase pareça da lavra de Andrew Keen, o ex-crítico número um da web.

Mas como, então, evitar o gradual desinteresse do público pelas publicações impressas? “Não sei”, encerra Talese.

As pessoas valem mais que as instituições

As máquinas de busca estão levando a audiência a acompanhar o trabalho de pessoas, não de instituições.

Essa constatação está no já velho State of News Media, mas resolvi trazê-la de volta por causa de Silvia Cobo, que fez uma boa análise deste momento do jornalismo.

A verdade é que, pesem os cortes na indústria formal, abundam oportunidades on-line para pôr boas ideias em prática e exibir o próprio trabalho.

Há um lado na crise do jornalismo que muita gente não vê: quem está cortando vagas é o mainstream. Só que agora o jornalista pessoa física vale mais do que seu empregador. O público (nossos leitores) tem essa noção claramente. Tanto que a busca na web por indivíduos, e não pelos títulos que lhes pagam, é bem mais expressiva.

Tiago Dória já havia comentado há mais de ano sobre essa tendência do lifestreaming.

E, por ela, qualquer jornalista que produza conteúdo pode se beneficiar profissionalmente.

Há oportunidades, mas não placas de precisa-se.

Tem de descobrir onde (e o que) é que precisa.

Imprensa sem lei

E, com o fim da Lei de Imprensa, há um grande vazio.

Vazio porque, por pior que fosse a Lei, era uma lei.

O jornalismo é uma atividade tão específica que, evidente, não está contida em sua plenitude nos (também retrógrados e impostos) códigos Civil e Penal. Jornalismo não aparece nem nos formulários de compras on-line _acabamos, todos, relegados ao item ‘outros’.

Em inglês, a Associated Press relata o fim da Lei da Imprensa

A mesma reportagem da AP, traduzida para o espanhol

A decisão do STF dá um poder tremendo aos tribunais de primeira instância, onde é sabido que a influência local é ainda mais desavergonhada.

É verdade, cansei de testemunhar derrapadas e erros grosseiros em reportagens. Algumas delas, inclusive, protagonizadas por mim. Mas a Lei de Imprensa que acaba de ser enterrada na cesta de lixo da história não dava conta do trabalho de reparação.

Mas a ausência de uma legislação específica sobre a atuação da imprensa formal consegue ser ainda pior. É um tema que a jornalismo tem de discutir para, no mínimo, impor limites e definir padronização de processos (como o direito de resposta).

Indo mais longe: o ato de apurar/analisar/difundir notícias é tão antigo quanto a própria humanidade. Foi potencializado pelas ferramentas da nossa era, que deu uma imprensa pessoal a cada um de nós.

Estaríamos, portanto, sujeitos a uma espécie de lei de imprensa se a nova legislação (e eu espero que ela exista) for feita sob a luz da nova ordem informacional?

Duvido. Será mais atraso.