Arquivo do mês: maio 2009

Leitores ajudam jornal a fotografar cadáveres

O jornal popular equatoriano Extra está utilizando uma extensa rede de colaboradores não remunerados (leia-se: seus próprios leitores) para driblar uma proibição que quase põe fim ao próprio jornal.

Desde 2008, uma lei federal proíbe que a polícia ou o IML permitam o acesso de fotógrafos de veículos jornalísticos aos cadáveres.

Para o Extra, que sempre exibiu cenas de crimes na sua primeira página (indefectivelmente ao lado de modelos desnudas), foi o princípio do fim.

A publicação, porém, segue publicando defuntos com protagonismo em suas páginas. Como? Graças aos leitores, que avisam a redação, via internet e telefone, quando se deparam com um presunto fresco.

Desta forma, jornalistas do periódico estão conseguindo chegar às cenas dos crimes antes dos policiais _flagrando o morto.

É sensacionalismo, mas de resultados: o Extra, com uma tiragem estimada em 210 mil exemplares, é o jornal mais vendido do Equador.

Sugestões para o ensino de jornalismo

A dica é do @agranado e é bem legal: que disciplinas deveriam ser ensinadas a estudantes de jornalismo.

A economia do freelancer e o empreendedorismo jornalístico são, disparado, as sugestões mais auspiciosas.

A falsa mobilização da ex-plateia

O falso anúncio dos leitores no NYT

O falso anúncio dos leitores no NYT

O engajamento da audiência (ou melhor, da ex-plateia) definitivamente mudou o fazer jornalístico. Não só mudou como, em alguns casos, o influenciou diretamente, criando ruídos contestatórios e evidenciando que seu poder não é mais o mesmo.

Só que muitas vezes essa audiência serve a interesses, inclusive de governos que, nas sombras, agem bancando seus devaneios.

A ONG “For the Next Generation” voltou a fazer barulho ontem, ao publicar no New York Times um anúncio que repara um mapa publicado pelo jornal _a questão é toda política e envolve o nome de um quase golfo entre as Coreias, China e Rússia, além do país que lhe dá o nome mais usado.

O NYT escreveu Mar do Japão, o ONG briga pelo uso de Mar do Leste. Daí a provocação.

Não foi uma novidade: em 2005, a entidade publicou anúncio semelhante no The Wall Street Journal. É seu modus operandi.

No caso mais recente, ela diz que foram 94.966 doadores que bancaram o anúncio, cujo valor não foi revelado (mas gira em torno de US$ 60 mil), quase todos coreanos.

Aqui se trata de massa de manobra, não de uma manifestação espontânea da ex-plateia. Apenas para que os registros de uma conduta induzida e politizada não sejam confundidos com a legítima participação do público no jornalismo formal.

Quem é mais nocivo à democracia: Hugo Chávez ou o exército imbecil de adoradores de Lula?

Novas ameaças do ditador da Venezuela, Hugo Chávez, contra veículos jornalísticos que criticam seu governo. Ontem, em seu “programa” de TV (que não passa de doutrinação barata), o mandatário foi categórico ao afirmar que poderá cassar concessões _como já o fizera com a Univisión.

Uma coisa é a crítica, e outra, a conspiração“, disse.

O que me dá medo é que essa é exatamente a lógica da turba irracional e burra que, cega por opção própria, incensou Lula a outro patamar, transformando em golpe qualquer tentativa de opinião ou análise racional do que está acontecendo no Brasil.

Dia desses falei, numa resposta na caixa de comentários do site, que não aceito patrulhamento de nenhuma espécie. Nem sei se seria o caso hoje, já que nem sequer entrei no mérito do governo Lula, mas de seu séquito de adoradores que, paspalhos e imbecilizados, não têm condições de viver num estado democrático de direito.

Deveriam, pois, mudar de bibelô e se bandearem todos para Caracas. Lá, sim, eles terão um presidente que pensa _e mais do que isso, que age_ como eles.

Ainda nos representamos lendo jornais

Acrílico sobre tela, 61 cm x 50 cm, concluído em 2007 por David Yerga: é um tabloide grosso e arrojado, do tipo que não tem no Brasil

Acrílico sobre tela, 61 cm x 50 cm, concluído em 2007 por David Yerga: é um tabloide grosso e arrojado, do tipo que não tem no Brasil

As lições de um filme sobre uma entrevista

Sim, é verdade: em se tratando de cinema, eu estou sempre atrasado.

Mas é necessário discorrer, pelo menos em algumas linhas, sobre coisas que vi em Frost/Nixon e que me deixaram com a certeza de que o filme é o melhor sobre jornalismo que já assisti.

A história do encontro do apresentador de tv britânico David Frost com o ex-presidente norte-americano Richard Nixon, apenas quatro anos após sua renúncia, tem inúmeras referências bastante úteis sobre e para a profissão.

A mais importante delas é exibir a arte da reportagem entrevista.

É assim: fútil e despreparado, Frost passa três dos quatro dias que teria com Nixon ouvindo lorotas e causos do presidente. Sem interromper. Chega a ser desesperador.

Quando percebe que tem sua última chance, ele (ajudado pelo diligente produtor que o acompanhou na empreitada e tinha bem mais tutano do que ele), se debruça sobre documentos e, por dentro do assunto, consegue provocar a fúria de Nixon.

Consequentemente, obtém ótimas declarações que colocariam a entrevista, no final das contas, entre as mais importantes da história.

Este vídeo mostra um trecho da entrevista original, não do filme, e tem um pouco disso tudo (das divagações, do entrevistado que não interrompe e, finalmente, de um homem acossado que explode ao ser acuado com perguntas desconfortáveis).

É inspirador. E uma lição de alguns meandros da profissão que muitas vezes passam despercebidos _como a importância do trabalho em equipe e a pré-produção, esta a melhor amiga de qualquer atividade jornalística.

Armados com lei de 1918, tubarões caçam amadores

A Associated Press levou, há 91 anos, um concorrente que cozinhava seu conteúdo aos tribunais nos EUA.

Cooperativa mantida por jornais, tvs e rádios do país, a AP se sentiu ameaçada em 1918 pela INS (International News Service), agência de notícias rival de propriedade do magnata William Randolph Hearst _quem inspirou o clássico Cidadão Kane.

A I Guerra Mundial se desenrolava na Europa, e a AP tinha a primazia sobre a informação (não era permitido à INS, que não possuía o carimbo de agência “confiável”, o acesso ao teatro de operações do conflito).

Fato é que a rival da AP conseguia cobrir a guerra por meio de uma sistemática que nunca foi devidamente explicada _aparentemente, emissários de Hearst obtiam simultaneamente, por meio de suborno, as reportagens da AP e, via telégrafo, as transmitiam para seus assinantes, devidamente reescritas.

A estratégia garantiu aos jornais que assinavam os serviços da INS vários furos, notadamente os da costa oeste dos Estados Unidos, quatro horas de fuso atrás de Nova York _e onde a adesão à AP era menor.

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos criou a “doutrina da notícia quente”, pela qual grandes grupos, como a AP, detinham o direito de legal de exclusividade sobre as coberturas em que seus concorrentes não conseguissem “apuração independente e checagem”.

Isso em 1918.

Agora, e pelo mesmo motivo, a NBA foi atrás de um site que exibia resultados de jogos da liga de basquete dos EUA em tempo real (sem credencial para acompanhar as partidas in loco), e agências de notícias como a mesma AP caçam agregadores de conteúdos e feeds.

Ainda em há, em alguns Estados americanos (a lei deixou de ser federal), a “doutrina da notícia quente”. É por meio dela que alguns grupos do mainstream têm caçado profissionais e, sobretudo, amadores.

Porém eles não fazem como a INS, que não citava a AP como fonte (despacho do juiz há 91 anos considerava que, houvesse a referência, o delito seria atenuado).

O que é um agregador de feeds senão uma vitrine explícita para o conteúdo ali exibido (uma coleção de links)?

Em tempo: até onde sei, a mais recente demanda judicial de empresonas contra bagrinhos é esta. Patético.

Plágio no jornalismo: a tal da hipocrisia

O caso da reportagem da revista Veja que usava aspas de outro texto, este publicado pelo Wall Street Journal, ressuscitou uma polêmica: afinal, como identificar (ou considerar) um plágio no jornalismo?

É essa a pergunta que faz o Knight Center for Journalism in the Americas.

Antes de respondê-la, que atire a primeira pedra quem nunca se serviu de uma aspa ou informação publicada por um veículo (estrangeiro ou nacional).

Certo ou errado (eu acho certo quando há citação à fonte, por exemplo), é prática corrente na imprensa _não apenas a brasileira, mas a mundial.

Não sei se é o caso de crucificar o profissional ou debater o assunto. Eu sempre prefiro a conversa.

Agora, óbvio que é hipocrisia lançar o jornalista à fogueira. Até porque quem faz isso certamente já “roubou” aspas ou informação. É tão corriqueiro nas redações que eu afirmo categoricamente.

Penúria dos jornais é tema de audiência no Senado dos EUA

A crise da imprensa americana foi tema ontem de uma audiência no Senado comandada por John Kerry (o senador que esteve a 60 mil votos de ser presidente dos EUA).

A conversa teve muita gente boa, que deu depoimentos iniciais importantes e que fazem refletir (leia em detalhes, são muito boas).

Gente como Arianna Huffington, que comanda o site que leva seu nome e é um dos maiores exemplos de jornalismo eletrônico bem-sucedido fora do mainstream, James Moroney (editor-chefe do The Dallas Morning) e Steve Coll (ex-diretor-administrativo do The Washington Post).

A turma do Columbia Journalism Review blogou a audiência ao vivo. No microblog, a hashtag #futurej também traz apontamentos sobre as discussões.

Foi uma conversação nostálgica, que teve Bernstein e Woodward (do caso Watergate), comentários sobre o hábito de folhear o jornal no café da manhã (houve senadores dizendo temer a mudança forçada de hábito) e piadinhas sobre entrevistas célebres de Ronald Reagan.

A conclusão é que a situação dos jornais tem de ser discutida no âmbito dos jornais. Senão, o ruído é grande demais.

Crise acirra, e jornais intensificam demissões no Brasil

A nova edição do Jornalistas&Cia (Não conhece? Reúne o que rolou durante a semana nas redações pelo Brasil) dá conta de um banho de sangue em O Dia, com pelo menos 20 demissões.

Há rumores de passaralho rondando outros jornais, mas por ora os maiores têm conseguido evitar demissões em massa _optaram por trocas pontuais, as quais muitas envolvem redução da massa salarial.

É a crise.