Arquivo do mês: abril 2009

O design de notícias e a salvação dos impressos

Um bom design pode ajudar a salvar jornais e revistas impressos? O designer polonês Jacek Utko crê nisso. Redesenhando jornais no leste europeu, ganhou vários prêmios e, melhor, viu subir em até 100% a circulação de veículos repaginados por ele.

Neste trecho de palestra, ele conta como uma apresentação do Cirque du Soleil lhe deu inspiração e elementos que depois seriam reproduzidos em páginas em branco.

A gente muitas vezes relega o design de notícias para o segundo plano, mas sem dúvida o envolvimento desta área é fundamental para a recuperação (ou melhoria) de qualquer impresso.

A culpa é das agências de notícias?

Essa é, disparado, a justificativa mais original que já li para a crise dos jornais impressos nos Estados Unidos. Para Paul Farhi (que é repórter do Washington Post), a culpa é da Associated Press, a boa e velha AP, mais antiga agência de notícias do mundo.

O raciocínio, exibido na American Journalism Review, é simples: ao vender seu serviço para portais on-line, a AP matou os impressos. O autor chega a perguntar “porque comprar uma cópia do New York Times se a versão da AP para assuntos nacionais e internacionais já foi distribuída em toda parte” _como se um jornal se resumisse a textos pasteurizados de agências.

A conclusão é que a AP deveria “ter ficado com a família” e se mantido fiel a jornais, tvs e rádios parceiros de longa data.

O texto é longo, mas tem o mérito de analisar o modelo de negócio dos portais e também das agências noticiosas, que hoje distribuem de graça seu conteúdo em sites próprios mas incrivelmente conseguem ser remuneradas pelos veículos que usam seu material.

É um caso raro e que merecerá a nossa atenção em breve.

“Por causa do diploma, fui obrigado a cursar Jornalismo”

Brinquedo da Playmobil lançado em 1980, estúdio de TV tinha peças avulsas que permitiam a reprodução de situações jornalísticas, como microfones de mão

Brinquedo da Playmobil lançado em 1980, estúdio de TV tinha peças avulsas que permitiam a reprodução de situações jornalísticas, como microfones de mão

Dando uma olhada nos arquivos do Webmanario (aliás, alguém aí notou que caiu o acento do nome  do blog?), descobri que em pouco mais de um ano escrevendo neste espaço dediquei nada menos do que 12 textos à obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão.

Num deles, inclusive, fui bem explícito sobre o que penso disso.

Nos últimos dias, muito em função da iminente votação do mérito no Superior Tribunal Federal (STF), o assunto voltou à tona _e os mesmos e surrados argumentos também. E quem ousa defender veemente posição contra o diploma acaba virando vítima de comentários sarcásticos, tolos e infantis.

Muito bem. Então hoje eu vou contar a história de um garoto que desde que se conhece por gente queria ser jornalista. E que foi obrigado a cursar a faculdade de jornalismo por causa de uma imposição imbecil, perdendo tempo precioso que poderia ter sido aplicado em outra graduação, mais útil.

O contato com o noticiário na casa de seus pais era frequente e quase uma obrigação: rádio havia uns seis (um deles, fixo, no banheiro); revistas semanais, duas, assim como dois jornais impressos diariamente. A TV, constantemente sintonizada em telejornais.

Enfim, uma casa que sempre respirou notícia (apesar de, até então, não possuir um único representante familiar no jornalismo), que debatia em família os acontecimentos.

À medida em que ia crescendo, o garoto colocava em prática outros experimentos. Com um gravador (gigantesco) e um microfone de lapela (bem menor, mas ridículo comparado aos de hoje em dia), gravava entrevistas com vizinhos e parentes, narrava partidas de futebol (imaginárias e de botão) e criava programas de rádio que só existiam em suas fitas cassete, mas que pareciam chegar ao mundo.

Encantou-se com o Playmobil estúdio de TV, com peças avulsas que incluiam cameraman, minicamera, repórter e microfone (com pedestal ou na mão _ambos curiosamente wireless já naquele tempo ;) ).

Um pacote bem mais caro (e cobiçado) incluía um caminhão azul e branco que supunha ser o link móvel da emissora, o que comandava intervenções ao vivo.

Rapidamente os bonecos se reconfiguraram, e  palhaço com corneta que se vê na foto lá acima ficou desempregado. Só se fazia jornalismo naquela emissora.

No éter, havia ainda as ondas curtas (e, com elas, a possibilidade de desvendar como era o jornalismo em emissoras de rádio planeta afora). Foram madrugadas e madrugadas em busca da emissão de rádio, seja em qual língua fosse, mais distante possível. Falo do dexismo. Só quem sabe o que é o World Radio TV Handbook entende exatamente do que se trata.

Simultaneamente, o cidadão lá batucava _primeiro numa Olivetti verde, depois numa Remington bege emprestada da irmã, mais velha_ textos que, depois de devidamente recortados e “diagramados”, viravam jornais sobre eventos familiares e escolares. Com fotos (sim, o garoto também já tinha noção de que era preciso ilustar as suas matérias).

No colégio, foi editor, redator e repórter da gloriosa revista de cultura Ignobilis, cuja circulação sem periodicidade definida e de cinco exemplares passava de mão em mão no Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes.

Quando chegou o vestibular, já sabia o que fazer. História teria de esperar. Claro, para se trabalhar em jornalismo (uma atividade intelectual que exige basicamente observação e contato com o noticiário, além de conhecimentos específicos que um curso técnico de curta duração dá a qualquer um) era necessário ter o malfadado diploma.

Nosso personagem começou a trabalhar numa redação de jornal ainda no primeiro ano da faculdade. Ali entendeu, de verdade, os significados de termos como “descer”, “lide”, “cortar pelo pé”, entre centenas de outros.

Acumulou experiência. Terminou a faculdade. Trabalha há duas décadas na profissão que escolheu praticamente ao sair do berço. Virou até professor universitário de jornalismo.

Sim, esse moleque era eu.

Agora imagine essa história sem uma faculdade de jornalismo no meio. As coisas teriam sido muito diferentes? Mais: fosse hoje, na era da publicação pessoal, seria necessário começar num redação de jornal diário?

“O jornal é um blog que deixa tinta nas suas mãos”

Presidente da Newspaper Association of America (NAA), John Sturm submeteu-se ao constrangimento de participar do humorístico de TV The Colbert Report, que mimetiza a linguagem dos telejornais para fazer piada.

Nos Estados Unidos, a situação dos jornais impressos não tem graça nenhuma. Após fechamentos de veículos em Denver e Seattle, nesta semana o Chicago Sun-Times (há anos capengando) quebrou de vez e agora tenta a recuperação judicial.

As declarações de Sturm ao comediante retratam exatamente o momento do jornal impresso nos EUA (e também na Europa). A claque ri do que deveria chorar. O presidente de NAA cita, com cara triste, que os jornais americanos têm milhões de visitantes on-line, e não cobram nada pelo conteúdo.

“Existe muita informação de graça”, diz Sturm. Sim, é o tal do compartilhamento. Não adianta se fechar em copas: seu conteúdo será distribuído por admiradores, não por piratas. Não tem jeito.

O final do vídeo, uma brincadeira de criança entre humorista e entrevistado, chega a corar Sturm. E quem vê.

É toda uma caricatura do fim de uma era.

ATUALIZAÇÃO: Ontem, no mesmo programa, foi a vez de Biz Stone ironizar/ser ironizado. A diferença é que ela comanda um empreendimento bem sucedido (o Twitter). Então, as piadas são sempre mais engraçadas.

O fantástico acervo da revista Life

Uma perturbadora capa da Life durante a Segunda Guerra Mundial

Uma perturbadora capa da Life durante a Segunda Guerra Mundial

Já está no ar o portal da Life, que resgata conteúdo histórico da revista norte-americana criada em 1936 e, em diferentes formatos e periodicidades, circulou até 2000.

Uma parceria com a Getty Images, uma das principais agências de fotojornalismo do mundo, permitiu que a revista renascesse na internet. Tanto que possui fotos do dia, todas (claro) fornecidas pela Getty.

Mas o prato principal são as imagens históricas, mais de 3 mil, que remontam a 1850. É uma surpresa atrás da outra no acervo. Dá pra perder horas ali. Pois perca, porque vale demais.

ATUALIZAÇÃO: esta galeria sobre a Guerra do Vietnã é sensacional também.

Não foi hoje…

A demora nas deliberações sobre a inscontitucionalidade de vários pontos da Lei de Imprensa (que não foi encerrada e também ficou para depois) fez o STF tirar da pauta de votações de hoje a deliberação sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.

A Fenaj tem mais informações, enquanto o Comunique-se cita que o controverso tema pode voltar à pauta amanhã.

Leia mais notícias sobre o assunto

É hoje: STF julga obrigatoriedade do diploma e Lei de Imprensa

Hoje, a partir das 14h, o (STF) Supremo Tribunal Federal julga duas matérias que têm tudo a ver conosco: a inconstitucionalidade de vários dispositivos da Lei de Imprensa e a obrigatoriedade de um diploma em jornalismo para exercer a profissão.

Reitero o que sempre disse: numa era em que qualquer cidadão desempenha a função, parece anacrônico ainda debater o tema. Afinal, apurar/analisar/difundir notícias é direito fundamental da pessoa.

As mídias do judiciário (TV e rádio) transmitirão a sessão. No microblog, a agência Radioweb anuncia a twitagem em tempo real. Mas vamos ver que bicho dá.

Enquanto isso, fique com Sérgio Lüdtke, um dos pioneiros da web no Brasil, que fala sobre ambas as coisas em texto muito lúcido na comunidade Interatores, que reúne o povo de mídias digitais.