Arquivo do mês: abril 2009

Melancias, laranjas e jornalismo

A Folha de S.Paulo reproduziu ontem texto do New York Times que trata da possível cobrança de conteúdo on-line por jornais dos Estados Unidos _movimento (e isso não está no texto) que poderá ser visto pela Justiça americana como cartelização.

De novo, o texto compara laranja e melancia: diz que os modelos de Wall Street Journal e Financial Times (ambos têm vasta carteira de clientes que pagam para ler material exclusivo) provam que é possível taxar o leitor on-line.

Esquece-se o autor da matéria que informação financeira é uma das poucas que as pessoas não estão dispostas a compartilhar. Logo, dentro desse nicho é sim possível cobrar pedágio. Fora dele, jamais.

Outra patinada do texto, e que tem sido frequente quando se fala sobre o assunto, é acreditar no modelo iTunes para o noticiário, como se música e notícia fossem a mesma coisa.

Não, não são. O prazo de validade é seu principal diferencial: notícia acaba assim que é lida. Logo, é incorreto comparar as duas coisas.

É difícil a compreensão de que não há volta com relação ao conteúdo gratuito na internet.

Ainda lemos jornais 1

Foto: boaz (Flickr)

Foto: boaz (Flickr)

A internet feriu de morte o jornalismo, dizem jornalistas

Ontem, que falamos da competição entre jornais pagos e gratuitos, coincidentemente a revista The Atlantic divulgou os resultados de uma tradicional enquete que realiza anualmente com “membros proeminentes da imprensa nacional”.

Pois 65% dos jornalistas ouvidos disseram o advento da internet “feriu o jornalismo”. As justificativas são as mais variadas _uma bem engraçada dá conta de que a web “treina os consumidores a ler notícias em pedaços cada vez menores”.

Como Jeff Jarvis já escreveu sobre a enquete, me abstenho. É exatamente isso: o jornal precisa confrontar sua realidade (de que seu centenário modelo de negócios ruiu) e pensar em reposicionar seu produto, partindo do pressuposto que o público leitor possui mais informação disponível.

Notícia = R$ 0,00

Jornais gratuitos dispensados em ônibus nos EUA: superdescartáveis?

Jornais gratuitos dispensados em ônibus nos EUA: superdescartáveis?

Vi um jornalista se queixar dos jornais gratuitos outro dia. Disse que eles roubam público dos jornais pagos.

Besteira. Agora zero é o preço da notícia _e de tantas outras coisas, como detectou Chris Anderson, editor da revista Wired.

Ao mesmo tempo, o jornalista queixoso (Adam Tinworth) propõe uma questão bacana: assim como são distribuídos facilmente, seriam os jornais gratuitos dispensados tão rápido quanto? A ideia lhe passou pela cabeça ao ver uma pilha deles abandonado num ônibus.

Bem crível.

O lado ingrato de ser repórter

Acusada de trapaça on-line para prejudicar um concorrente, a dona de uma loja de fantasias recebe uma equipe de reportagem da NBC News a caráter (vestida de coelho da Páscoa e com uma máscara fantasmagórica _há, ainda, muito provavelmente uma funcionária paramentada de Branca de Neve).

Só para lembrar alguns momentos em que é péssimo (e constrangedor) ser repórter. (via @BoingBoing)

O Google News e os jornais

Essa era boa, mas eu deixei passar: na terça, Eric Schmidt, executivo do Google, falou num evento da Newspaper Association of America _a mesma cujo presidente, despreparado, foi ridicularizado num humorístico da tv americana.

Claro que Schmidt teve de falar sobre serviços como o Google News, que agrega material noticioso e, portanto, aponta com frequência para sites de jornais. Alguns veem isso como roubo de conteúdo (vários solicitaram até judicialmente a exclusão das menções). Um disparate.

Esses jornais se esquecem que o Google tem muito mais audiência do que todos eles somados. E que a máquina de busca é a grande porta de entrada, hoje, de qualquer conteúdo na web. Se você não aparece numa busca, seja em que ferramenta for, está morto.

Talvez seja isso.

Mais um sapato jornalístico voador. Que vergonha.

Mais um jornalista atirou seus sapatos num personagem de matéria _agora na Índia.

Impossível não lembrar de Bush e sua desventura que virou até jogo na web.

Uma vergonha: jornalista usando o pouco que lhe resta de seu “poder” (a legitimação, ou seja, a autorização para estar próximo de figuras do noticiário) para escancarar uma opinião pessoal…

É a típica pessoa que precisa ser afastada da profissão urgentemente.

A Argentina ficou na mão

De verdade, há umas coisas no noticiário que deixam a gente constrangido, triste, estranho.

E quem está a falar é alguém que sempre diz que jornalista tem uma pedra no lugar do coração e que não deve reagir emocionalmente ao apurar, decupar e analisar acontecimentos.

Mas eu desmenti toda minha teoria repetida há milênios ao ver a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, com a mão estendida em vão enquanto seu similar norte-americano, Barack Obama, passava solerte para cumprimentar Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá, durante a cúpula do G20. Justo Cristina, que chegou antes para guardar o melhor lugar.

Vendo a cena mil vezes, até tento criar a hipótese de que a mandatária argentina percebeu a situação e,   com a mão cerrada (gesto pouco típico do aperto de mão), preparou-se mesmo apenas para tocar o   presidente dos Estados Unidos.

Deu dó. E ocorreu apenas dois dias depois da histórica surra que a Argentina de Maradona levou da Bolívia (1 a 6),   placar que igualou a pior derrota da vida do selecionado argentino (os mesmos 1 a 6 para a  Tchecoslováquia na Copa da Suécia-58).

Mas… e se a hipótese do “tapinha nas costas” estiver correta?

A tecnologia avança, mas sempre haverá um ser humano

A sanha da criação de mashups (junção entre dados originados em softwares para dar origem a outro, com viés analítico) tem seus poréns. Ou será que vc nunca viu uma mapa do estado norte-americano da Geórgia onde deveria estar o do país homônimo numa nota da AP ou da Reuters?

Automatismos são benéficos, mas ao mesmo tempo podem ser catastróficos para o jornalismo. Lembrem-se do #completeog1, movimento de leitores que desmascarou o microblog do portal de notícias de Globo _ele tinha erro de programação e interrompia, frequentemente, os títulos enviados via Twitter.

A professora Amy Gahran, a dama da persuasão, conta uma história legal detectada pelo Los Angeles Times (que outro dia @tdoria veio me dizer que é “ruim” _conceito absolutamente pessoal e intransferível): um erro num mapa de criminalidade gerado automaticamente estava bombando crimes em regiões onde eles não haviam ocorrido.

O lance era o seguinte: o mashup criado pela LAPD (a polícia local), sempre que não identificava um endereço, jogava a ocorrência do crime para um ponto default do mapa, criando uma aberração estatística.

Serve para a gente ficar atento que não, os dados gerados automaticamente também não possuem confiabilidade até que possamos atestar que estão corretos. Ou seja: sempre haverá um ser humano por trás.

Só jornal esportivo evita queda na circulação

Só o diário esportivo Lance (quem diria), entre os principais jornais brasileiros, teve incremento em sua circulação em fevereiro deste ano _a comparação, em cima de dados do IVC, é sobre janeiro e também fevereiro do ano passado.

Os dez jornais de maior circulação tiveram queda de mais de 6% no número de exemplares entre um ano e outro. A Folha de S.Paulo, líder nacional há anos, circulou 6,6% menos do que em 2008, chegando a 297.581 exemplares.

Nem o fenômeno Supernotícia, popular mineiro que usa a fórmula futebol-crime-mulher, escapou da depressão: após crescer fantásticos 27% em 2008, o periódico _o segundo em circulação no Brasil_ caiu 3,3% sobre janeiro de 2009 e 4,7% sobre o ano passado.

É a crise.

ATUALIZAÇÃO: Cláudio Garcia, assessor de comunicação do Instituto Verificador de Circulação (IVC), escreve nos comentários para retificar este post. Ele diz que os dados do instituto mostram que outros três jornais brasileiros tiveram aumento de circulação em fevereiro: Correio do Povo (RS) (0,3% em relação a janeiro/09 e 2,5% sobre o ano anterior), Zero Hora (RS) (3,23% em relação ao ano anterior) e Meia Hora (RJ) (3,56% em relação ao ano anterior.