Arquivo do mês: março 2009

A Era da Conversação

O jornalista perdeu o monopólio sobre a apuração/interpretação/difusão de notícias (por sinal, direito fundamental da pessoa). Hoje, os cidadãos têm acesso aos mesmos dispositivos tecnológicos que a mídia profissional. A era da publicação pessoal provocou um processo inescapável de conversação entre imprensa _antes o filtro universal dos acontecimentos_ e seu público.

Os conceitos condensados acima foram o tema das quase oito horas do curso “A Era da Conversação”, que ministrei à nova turma de trainees da editoria de Treinamento da Folha de S.Paulo.

Não será a única discussão do povo sobre o mundo digital e as mudanças que ele impôs ao exercício do jornalismo. Pelo contrário, esses focas passarão por treinamento multimídia, experimentarão novas plataformas e possibilidades de fazer bom jornalismo, ou seja, contar uma boa história.

Os slides da aula 1

Os slides da aula 2

Roteiro de links para acompanhar a apresentação

A bibliografia do curso

O jornal entende, neste momento, que nada melhor do que o trabalho de base para começar para valer um processo de integração de suas redações em papel e na web. Trabalho árduo que supõe conquistar, no menor prazo possível, a convergência de conteúdos.

Sim, conquistar, porque só se chega à convergência depois que compreendemos, individualmente, de que forma as múltiplas plataformas estão à nossa disposição para prestar um serviço mais eficiente ao leitor/usuário e seguir praticando bom jornalismo. É pensar como o seu produto (o texto que você acabou de escrever para um jornal impresso) pode ser complementado numa tela de telefone celular, num vídeo, num bate-papo na internet, numa enquete, numa lista de discussão.

No curso conversamos bastante sobre o microblog, grata surpresa jornalística em meio à enxurrada de ferramentas e sites de redes sociais. O Twitter, seu expoente máximo, foi convertido pelos usuários num espaço basicamente informacional, extrapolando o entendimento da pergunta “O que você está fazendo agora?” que convida, inocentemente, os internautas a prová-lo.

Finalmente, debatemos a facilidade de mobilização e vigilância que o público (o nosso público) adquiriu com o avanço tecnológico.

A cereja no bolo foi assistir a um fenômeno bem diante de nossos olhos: descoberto em sala de aula, o #completeog1 movimentou a sexta-feira da internet brasileira e teve como consequência uma reação quase imediata.

Era a ex-plateia nos lembrando que, agora, é ela que está no comando.

Público se mobiliza e obriga G1 a ‘se completar’

Alvo de protesto espontâneo dos leitores, site reage e, de quebra, ainda adiciona usuários

Alvo de protesto espontâneo dos leitores, site reage e, de quebra, ainda adiciona usuários

Não deixou de ser engraçado, numa semana em que falei bastante de Jay Rosen, Clay Shirky e do poder de mobilização da ex-plateia na Web, que um movimento de usuários de um site noticioso tenha conseguido resolver um problema irritante: as notícias incompletas que o site G1 entregava, frequentemente, em seu canal de microblog.

Como um protesto bem-humorado, o #completeog1, surgido no final de fevereiro, chegou a seu ápice na tarde de ontem _quando aliás o Webmanário teve a maior audiência de sua história justamente por ter divulgado o movimento.

O que era até então um protesto silencioso se transformou, com o repasse frenético de mensagens, numa corrente que obrigou o G1 a tomar providências. Sua página no Twitter, desgovernada pelo prosaico motivo da perda de uma senha, foi enfim adequada a um padrão mínimo de qualidade _o erro, diga-se de passagem, perdurou por mais de um ano.

Precisou, porém, ocorrer uma revolução para que o descalabro fosse resolvido. E foi rápido: passaram-se apenas algumas horas entre o hype do #completeog1 e a primeira mensagem notando que algo estava diferente: sim, o G1 começava a adicionar usuários, o que nunca antes ocorrera.

Depois, mais um sintoma: mudou a url curta que acompanha os miniposts e, melhor, os erros tinham sumido.

A revolução, proposta e executada pelos usuários, tinha chegado ao fim com o melhor resultado possível. Espera-se que agora, com pessoas e não robôs, o microblog do G1 dialogue e se aproxime mais do seu público.

Para quem não achava que as pessoas, mobilizadas e em rede, são mais fortes que qualquer corporação (a máxima de Shirky, por sinal), fica aí um exemplo maravilhoso.

Usuários se rebelam e ‘completam’ o G1

O canal de microblog automatizado e desgovernado do G1

O canal de microblog automatizado e desgovernado do G1

Terminei há pouco de ministrar um intensivão de multimídia/convergência (foram ao todo oito horas de aula para a nova turma do Treinamento da Folha) e, como sempre quando se está em sala de aula, os alunos descobrem o mais bacana por si sós. Bem por isso é legal lecionar.

Dei muita ênfase, na conversa (sobre a qual falarei com mais detalhes em breve, com direito a slides e links úteis), sobre a diferença entre presença e atuação on-line. Não são, como pode parecer, a mesma coisa.

Meu exemplo preferido é a conta de Twitter do site noticioso G1, que além de ser automatizada (publica imediatamente todo o conteúdo que entra no site), está desgovernada. Possui um erro, como o que eu exibo acima, absolutamente insuportável: quando um título possui aspas, ele é abruptamente interrompido.

Vai daí que, em sala de aula, descobrimos na busca da ferramenta que já existe uma mobilização de usuários fazendo troça desta inaceitável maneira de administrar um produto jornalístico (que, antes de mais nada, precisa de gente manipulando, não de robôs).

É o “complete o G1“, bem-humorada reação de gente decepcionada com erros que tornam as notícias incompreensíveis. Basicamente: eles decidiram completar ao seu bel-prazer os títulos interrompidos. Hilário.

E por que o G1 não faz nada para arrumar esse erro? A história é tão prosaica que provavelmente vc não acreditará quando eu contar…

ATUALIZAÇÃO: o grande André Marmota, aí embaixo nos comentários, fez um trabalho de arqueologia twitterística e diz ter encontrado a origem da comunidade #completeog1 num tweet de 26 de fevereiro.

Leia também: Usuários se mobilizam e obrigam G1 a ‘se completar’

O futuro do jornalismo é uma câmara de gás?

Jorge Rocha, que há tempos decretou a morte do jornalismo, reuniu um time de debatedores para discutir texto bastante recente de Pedro Doria _precisamente sobre o futuro da profissão, ou melhor, de seu exercício.

O resultado é um post caudaloso que abrange algumas das principais inquietações de quem faz e estuda o assunto, como novos modelos de negócios, o choque de gestão na administração da empresa jornalística em tempos bicudos e a migração (ainda lenta e não gradual) para a plataforma on-line.

Outra questão sempre presente nos textos de Rocha (“afinal, os jornais vão desaparecer?”, como pergunta o professor Philip Meyer) está lá. E as respostas para ela, claro, bastante diversas.

A verdade é que antes mesmos da crise econômica os jornais já estavam diante do maior desafio de suas histórias. Perdem leitores, perdem anunciantes, perdem receita e, mesmo assim, ainda se mobilizam de forma paquidérmica em meio a tantas novidades _principalmente a urgência do estabelecimento de uma política de colaboração com o leitorado.

Como bem diz a Ana Brambilla, uma das debatedoras do “evento” de Rocha, “Jornalista que não responde a e-mail de seus leitores não está apto a trabalhar com o jornalístico digital. Por quê? Porque a cultura digital tem como traço característico a APROXIMAÇÃO entre seres humanos por suas idéias, interesses, a despeito de localizações geográficas ou diferenças intelectuais, financeiras, religiosas etc.”

Terminamos _sim, além de Brambilla, eu, André de Abreu, Conceição de Oliveira, Pedro Markun e Sérgio Leo participamos do, digamos, post coletivo_ levando uma bronca por não termos oferecido uma resposta à pergunta “então, a partir daqui, para onde é que nós vamos, hein?”

De minha parte, a réplica é a pior possível: “no momento, a lugar nenhum. Estamos absolutamente parados olhando a banda passar”.

Juntar as redações vale a pena?

Um trabalho de fôlego bastante elucidativo. É assim o “Documental Multimedia Redacciones Online“, que passeia por seis veículos de Argentina e Espanha (ABC, Clarín, Critica, Cronista, El Pais, El Mundo e Perfil) para relatar suas experiências de integração papel e on-line e convergência entre plataformas.

Nem é preciso dizer que, pela importância dos veículos visitados (Clarín e El Pais, por exemplo, são provavelmente os dois cases mais bem-sucedidos de fusão de conteúdos), o site é um achado.

Traz, em vídeos, entrevistas de jornalistas, histórico das experiências, fotos para exibir a logistica das redações…

Enfim, ajuda a elucidar um pouco essa dúvida que atormenta os jornais mundiais: afinal de contas, vale a pena juntar suas redações?

Via e-cuaderno.

O jornalismo on-line em 1981

ATUALIZAÇÃO: este post me deu trabalho. Primeiro, simplesmente esqueci de colocar o link do vídeo. Agora, horas mais tarde, descubro que coloquei o link errado. Juro por deus que o link abaixo, definitivamente, leva à reportagem citada. Mais uma vez, desculpas.

Mais um vídeo resgatado direto do baú da imprensa mostra, nos EUA, a movimentação de redações em torno de uma grande novidade que se avizinhava: computadores em rede, ou seja, uma nova plataforma para prestar serviço aos leitores.

Era o longínquo 1981 _e já se falava no tráfego de dados via computadores fisicamente distantes.

“We’re not in it to make money. We’re probably not going to lose a lot, but we aren’t gonna make much either”, diz David Cole, do San Francisco Examiner.

Imperdível.

Mais um passo em falso do presidente bossa-nova

Eu já vinha avisando há tempos, desde antes da posse, durante e depois: a propalada “cabeça 2.0″ de Barack Obama e equipe não era estratégia de governo, mas de campanha.

Tanto é assim que já existe, nos sites de redes sociais, mobilização por doações à chapa Obama-Biden para 2012. Entrementes, os canais oficiais do presidente Obama na Web estão pra lá de abandonados.

Agora Tiago Dória conta a estocada da Casa Branca ao You Tube _depois de relegar o microblog ao último plano. Diz -se que, “por segurança nacional”, expor os pronunciamentos oficiais do presidente num site público (com as devidas estatísticas de audiência, por exemplo) não é recomendável.

Tudo bem, mas e compartilhar os textos, vídeos e áudios que milhares de americanos, por dias a fio, encaminharam para a página supostamente 2.0 do novo presidente? Nada. Essa comunicação tem mão única. E reforça o caráter altamente triste de micagem na Internet.

Meu mestre mandou, eu não questiono.

O feed de todos os feeds

Falando em feed, a sacada do @tarushijio é ainda melhor: associar o Alltop, um dos agregadores de feeds do momento, à palavra jornalismo.

O resultado é um panorama (em inglês) bastante surpreendente das páginas mais expressivas que estão tratando do tema.

Não lembro de ter visto algo tão completo recentemente.

É a vida real

Não é pieguice, mas ainda sobre o fim do Rocky Mountain News, jornal de Denver com 149 anos nas costas que não soube reagir à mudança do mundo e fechou as portas: um vídeo feito pelos funcionários dá bem o tom trágico e humano de um acontecimento como o fim de um jornal.

As cenas da reunião que pôs fim ao diário parecem, sem dúvida, um filme. Reparem em dois repórteres tomando notas num bloquinho _naquela que seria a sua última matéria ali.

De chorar outra vez.

Feed jornalístico volta à ativa

O Journalism.me, feed atento ao assunto jornalismo na blogosfera, voltou ao ar nesta semana após meses de interrupção.

A iniciativa é de Kiyoshi Martinez, mesmo autor do projeto Angry Journalist _aquela página onde coleguinhas descarregam suas metralhadoras cheias de mágoas da profissão (já são mais de 800 depoimentos).

Ambos valem a visita.