Arquivo do mês: março 2009

A aula na Famecos

Alunos do terceiro semestre da PUC-RS pouco antes de aula sobre jornalismo digital (Foto: Alec Duarte)

Alunos do terceiro semestre da PUC-RS pouco antes de aula sobre jornalismo digital (Foto: Alec Duarte)

Ainda em Porto Alegre, participei de uma aula de jornalismo digital dos professores Ana Brambilla e Andre Pase aos alunos do terceiro semestre da Famecos, a faculdade de comunicação da PUC-RS.

Foi uma conversa bem centrada na importância de o jornalista entender que foi desbancado pela tecnologia (o público agora tem acesso aos mesmos dispositivos e pode fazer jornalismo se quiser) e na necessidade de estabelecer uma conversação consistente, produtiva e colaborativa com essa gente.

Na apresentação, mostrei alguns cases importantes de fusão, apropriação e uso de novas ferramentas _mas bem sob a ótica do contexto de circulação e relevância de periódicos no Brasil.

A conversa fluiu tão bem que falamos ainda de campanhas virais na web e do negócio dos jornais gratuitos. E, claro, de um bom exemplo de mobilização da ex-plateia que deixou um site noticioso de joelhos: o #completeog1, que obrigou o produto global a corrigir um problema imperdoável em seu canal de microblog.

Não vejo a hora de voltar.

O incrível vídeo da tartaruga que ataca uma pomba

Vou postar este vídeo antes que eu esqueça. Mostra uma tartaruga, no melhor estilo National Geografic, atacando, afogando e comendo uma pomba num parque de Porto Alegre.

Foi feito pelo fotógrafo Ronaldo Bernardi, de Zero Hora, jornal onde passei uns dias na semana passada trocando impressões sobre as novas demandas do jornalismo na era do avanço tecnológico desenfreado.

Para obter essa imagem, houve primeiro uma apuração entre os frequentadores do parque, que lhe contaram a história. Mas, da apuração ao vídeo, exatamente um ano se passou.

A persistência foi premiada: Ronaldo é fotógrafo. Mas, antenado com o novo contrato da profissão, também produz vídeos e faz reportagens. Ah, ele fotografa também. E bem.

É a cara do novo jornalismo.

Quando notícias velhas voltam a ser notícia

Leitores do New York Times têm sido surpreendidos, nos últimos dias, por correções de reportagens antigas publicadas pelo diário, o mais importante e influente do mundo. Algumas delas, bem antigas (vá ao item “The Arts”). Caso de um texto estampado em 1906 pelo diário.

A história completa quem conta é Craig Silverman, na Columbia Journalism Review. Um resuminho: em matéria publicada há 103 anos, o relojoeiro Jonathan Dillon contou ao jornal qual era o teor da inscrição que colocou na parte de dentro de um relógio depois ofertado ao presidente Abraham Lincoln. Só agora descobriu-se o conteúdo real da mensagem.

O caso é uma demonstração clara de mudança no exercício do jornalismo provocada pelo avanço tecnológico, minha principal linha de pesquisa acadêmica há dois anos. Claramente, a conexão 1906-2009 só foi possível por meio de mecanismos de busca na web.

Sou de um tempo em que pesquisar significava passar horas num lugar bolorento, empoeirado e sem ventilação. Por obra do especial da Copa de 1958 da Folha de S.Paulo, que coordenei no ano passado, revivi um pouco esses tempos com horas em arquivos de jornais de São Paulo, Rio e Montevidéu.

A reação que essas correções retrô provocaram é outro exemplo de interferência da tecnologia na prática da profissão: leitores que vasculharam referências a seus nomes no jornalão passaram a exigir retratação do periódico. Hoje, consta que são ao menos 12 pedidos por dia. Da simples correção de grafias à supressão total de notas sociais sobre casamentos que, tempos depois, acabaram.

Se o jornal impresso é um registro histórico do dia que passou, nada parece ser mais adequado do que esse revisionismo. No New York Times (e em quem mais se atreva a adotá-lo), porém, ele terá limites. Não há quadro para corrigir tudo o que o produto publicou de equivocado em sua história.

Além disso, seria uma impropriedade. É um documento histórico, não? Pois não comporta atualizações, muito menos a mais prosaicas, como a demanda do leitorado por atualizar o status de um casamento fracassado.

De toda forma, é mais um exemplo muitíssimo bem acabado de como a tecnologia transforma diariamente o fazer jornalístico.

Leitores acham jornais irrelevantes nos EUA

Esse dado detectado em pesquisa do The Pew Research Center é revelador: só 43% dos americanos acham que o fim do jornal em sua cidade teria impacto cívico na comunidade.

Ou seja, são os próprios leitores que estão dizendo que os jornais são irrelevantes Ou, pelo menos, que não cumprem o papel que deles se esperava).

E agora? 

(via @agranado)

A viagem de volta

Depois daquela loucura toda da vinda, chegou a hora da volta.

De novo pela Gol, voo 2103, que se tudo deu certo saiu exatamente agora do Salgado Filho rumo a Congonhas.

Será que fiquei com medo de voar, fenômeno que nunca tive?

Conto depois.

ATUALIZAÇÃO:  Céu de brigadeiro com direito a ver o mar, Santos e o complexo Anchieta-Imigrantes (sempre bonito de se ver de lá de cima). Tudo deu certo. E não ficou nenhum ranço da péssima experiência do urubu naquele dia. Ainda bem.

Uma foto que paga toda a cobertura

O recado da polícia colombiana ao Grêmio, flagrada por um repórter de papel (Foto: Leandro Behs/Agência Zero Hora)

O recado da polícia colombiana ao Grêmio, flagrada por um repórter de papel (Foto: Leandro Behs/Agência Zero Hora)

Dizer que o jornalismo multitarefa exige apenas pequenas intervenções para um jornalista de meio impresso não é mantra, é a realidade.

Falei muito sobre isso ao participar de aula dos colegas Ana Brambilla e André Pase, na Famecos, a agradável faculdade de Comunicação da PUC-RS (sobre este papo, conto mais em breve).

Nesta quarta mesmo, na Zero Hora (principal jornal do Sul do país, onde passo uns dias trocando experiências de convivência entre equipes on-line e de papel), ocorreu um exemplo claro. Leandro Behs, enviado especial do jornal impresso a Tunja (Colômbia), flagrou uma mensagem deixada pela polícia local ao Grêmio _que lá jogou, perdeu dez gols (dois deles sem goleiro) e venceu o Boyacá Chicó por 1 a 0 pela Libertadores.

Em aceitável português, uma faixa assinada pela polícia local saudava a equipe brasileira e proclamava que vigiava o Estado mais seguro da Colômbia. Foi um protesto pícaro, porque antes de jogar em Tunja os dirigentes do Grêmio (esse bando de trapalhões amadores) criaram um clima constrangedor e desnecessário (vá direto ao infográfico).

Sem desviar de seu caminho, mas atento à paisagem, o repórter não só viu a faixa como parou para fotografá-la. Difícil, né? Aquela mesma câmera digital que jornalistas carregam a tiracolo e adoram usar para registrar a própria intimidade (como cenas de boteco), mas resistem a aplicar no trabalho.

Pequena intervenção que rendeu uma das matérias mais acessadas do site gaúcho e, de quebra, uma foto exclusiva ao jornal. Em resumo: pagou a viagem do enviado à Colômbia.

ATUALIZAÇÃO: a edição impressa de Zero Hora NÃO publicou a foto. Erraço.

Blogueiro pioneiro entrevista ‘biógrafo’

Dave Winer, um dos primeiros blogueiros, entrevistou (em áudio) o professor Jay Rosen, um dos caras que ajudaram a identificar essa gente (a ex-plateia), como Winer, que ajudou a enterrar o monopólio da imprensa naquela tarefinha de apurar/interpretar/difundir notícias.

Ouça.

Jornalista até na hora da morte: a quase tragédia do voo 1244

Um dos cartões de embarque do voo 1244 que escaparam de torrar no incidente do urubu atropelado em Congonhas

Um dos cartões de embarque do voo 1244 que escaparam de torrar no incidente do urubu atropelado em Congonhas

Confesso ter acreditado piamente que, em vez de estar escrevendo agora, eu estaria morto.

O estrondo de uma turbina no exato momento da decolagem, às 10h37 desta terça, seguida de um forte cheiro de queimado que invadiu sem pedir licença _e imediatamente_ toda a cabine de passageiros, me deram o sinal de que algo estava errado naquela operação tão banal.

Eu viajava na fileira 22, ao lado de uma respeitável senhora. Na verdade, uma espécie de Luiza Brunet, porém loira, que chamara a atenção desde que se dirigiu a mim dizendo “O senhor me dá licença?” _sentença de morte para minha autoestima, nem precisa dizer.

E foi-se para sua janela a Brunet galega, na poltrona 22A. E eu, que sempre peço a do corredor, impávido como Muhammad Ali na 22C.

Voltemos ao estrondo e ao cheiro de fumaça. Eu, metido a entendido em pousos e decolagens, identifiquei o baque como aquele barulho que faz o trem de pouso ao ser recolhido. Na verdade, esse estrondo soou exatamente como o tranco que os macacos hidráulicos dão ao guardar essas peças. Tanto que, tranquilo, reparei no meu ex-prédio ali perto do complexo Itaú no Metrô Conceição. Até então, dava de ombros.

Mas logo caiu minha ficha. Não podia ser o trem de pouso se o avião nem bem tinha deixado o solo (eu diria até que não deixou, mas não tenho provas). Subimos. Subimos assim. Com um baque-estrondo e cheiro de queimado como acompanhamento.

A escalada dos acontecimentos me aproximou ainda mais da realidade. Imagine-se num Uno Mille subindo uma ladeira de paralelepípedo num dia chuvoso. Pois era esse o nosso avião. Não bastassem o estrondo associado ao instantâneo cheiro de queimado, decolávamos lentos como uma tartaruga, com as turbinas nitidamente no mínimo.

Essa situação incomodou particularmente os últimos 20 passageiros do voo Gol 1244 (Congonhas-Porto Alegre), todos funcionários da empresa aérea pegando carona na viagem pouco concorrida _eu contei no dedo, mas pode ter faltado alguém, 77 pessoas.

Subíamos “à peine”, como bem dizem os franceses, e começávamos a fazer voltas que sugeriam descontrole. Lembro de ter visto a represa Billings (“é última vez”, pensei). O dia estava nebuloso. Então até as nuvens em nossa volta eu queria desfrutar. “É a última vez”, não cansava de repetir comigo mesmo. Entrementes, o avião perdia altitude. De minha parte, preparei o fechar de olhos e o desaparecimento eternos.

Os passageiros nem tiveram tempo para reagir. Não houve gritos, só alguns poucos comentários. “Vocês ouviram esse barulho?”, indagou minha Brunet. Outro passageiro se dirigiu aos funcionários da Gol com uma observação altamente técnica: “Nessa hora da decolagem os motores não deveriam estar a toda? O que está acontecendo?”

Subitamente, recomeçamos a subir, ainda devagar, ainda com barulho de motor 1.0, mas subíamos. Bem melhor que descer, nessa circunstância.

Não soubemos o que houve até que uma voz que se identificou como comandante do Boeing contou que “o cheiro de churrasco de passarinho” se deveu à turbina esquerda do avião sugar “provavelmente um urubu”. As voltas foram justificadas como “uma saída das rotas de tráfego aéreo, por segurança”. E o comunicado terminava com um reconfortante “a tripulação e nossa manutenção em terra consideram seguro prosseguir viagem”.

Reconfortante uma ova. Foram os 100 minutos mais longos de minha vida, até a chegada ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. No desembarque, a janela do finger virou ponto turístico: todos os passageiros queriam ver o que houve com a turbina que comeu um pássaro. Cheguei a tempo de ver um conjunto de penas ser retirado por um funcionário em solo.

Já em terra firme, lembrei as duas coisas que pontuaram os momentos da crise. Primeiro, meu filho e minha família. No ar, quebrei as regras aeronáuticas ao sentir que estávamos indo pro brejo e saquei o celular para ver a cara sapeca do meu moleque e de minha companheira querida.

Mas, monolítico por jornalismo, também pensei no aspecto de virar notícia no dia da minha morte. Confesso que vi minha foto 3×4 debaixo do chapéu A TRAGÉDIA DO VOO 1244 de um jornal qualquer. Isso mesmo, enquanto penávamos para prosseguir no ar.

Virar notícia no dia da própria morte é algo que, positivamente, não planejei pra mim. E pensei (ainda quando o Uno Mille tentava vencer a ladeira de paralelepípedo na chuva) que os deuses deveriam chegar a um acordo e deixar sobreviver uma única testemunha, que seja, em cada tragédia. Para contar esses detalhes que, tivesse mesmo caído um avião, fariam diferença tremenda.

Mas que fique claro: não quero ser a testemunha outra vez.

Revista Time faz bolão fúnebre com saúde de jornais

A Time publicou um bolão fúnebre: sua lista de dez jornais americanos mais ameaçados pela crise, sob a luz do fechamento do sesquicentenário Rocky Mountain News. No entendimento da reportagem, são publicações que correm o risco de ou simplemente desaparecer ou resistir apenas on-line.

A revista nem considerou o caso do Seattle Post-Intelligencer, prestes a parar as máquinas pela última vez.

A relação

1. The Philadelphia Daily News

2. The Minneapolis Star Tribune

3. The Miami Herald

4. The Detroit News

5. The Boston Globe

6. The San Francisco Chronicle

7. The Chicago Sun-Times

8. NY Daily News

9. The Fort Worth Star Telegram

10. The Cleveland Plain Dealer

Apareceu um blog de verdade

As redes sociais segundo Allendegui (Foto: boliston/Flickr)

As redes sociais segundo Allendegui (Foto: boliston/Flickr)

Um blog de verdade me adicionou no microblog. Desta vez não será nem o caso de começar um post como tantos outros posts que já lemos na vida (com o famoso “Descobri um blog…”). Fui encontrado, é diferente.

Juan Andrés Muñoz Fernández, ou simplesmente Allendegui, pilota um blog de verdade e não duvido que esteja entre as dez melhores pessoas em língua espanhola que desenvolvem projetos jornalísticos na web.

Só acompanhando pra entender o que é uma bitácora.