Arquivo do mês: fevereiro 2009

Cadê o jornalismo preventivo?

Jeff Jarvis, professor de jornalismo da Universidade de Nova York, presenciou em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, um sinistro embate entre cabeças coroadas dos jornalões globais e figurões da economia. O tema: por que não fomos (jornalistas e economistas) capazes de prever o dilúvio?

Há licenças poéticas: o assunto subprime (grosso modo, a hipoteca da hipoteca) está presente há anos no vocabulário da imprensa mundial, e previsões pessimistas já pululavam bem antes de água bater na… bem, você sabe onde [essa eu empresto descaradamente de Ancelmo Gois].

Houve coisas interessantes na conversa na Suíça. Como a lembrança que a discussão de verdade era “como algumas empresas valem tanto?” ou “como desempregados conseguem empréstimos?” Ver o tamanho do rombo do descaminho é muito mais fácil que questionar seu avanço antes, degrau a degrau.

Ao definir a profissão, Jarvis manda um “Nosso trabalho é descobrir o que as pessoas não querem nos contar”, tão bom quanto “A gente é a mosca na sopa”, a que tantas vezes eu recorro no exercício do jornalismo.

O jornalismo e a apuração no Google

Foi Leopoldo Godoy, editor de Tecnologia do G1, quem me contou hoje (sim, nada como uma reunião na escola do filho seguida de uma festa infantil para que a vida off-line te lembre que ela existe): sábado deu um pau federal no Google.

A empresa admitiu que seu site de buscas ficou inacessível por 40 minutos _mas há relatos de que demorou horas.

Daí o Godoy disse algo do gênero: “o jornalismo acabou por x espaço de tempo”. Uma brincadeira, mas com um fundo preocupante de verdade.

Pior que escorar sua apuração no Google é o atual jornalismo brasileiro, por uma indecifrável questão de monocultura, desconhecer as outras máquinas de busca que estão na rede.

Sim: deu pau no Google, acabou. Não se checa mais nada? Exagero, mas quase.

Ele é bem melhor? É. Mas sempre tem pra onde correr.

E-mail é coisa de velho

A constatação do título acima é, na minha opinião, a mais importante de uma recente pesquisa do Pew Research Center sobre os hábitos do internauta americano.

A decadência do e-mail entre os adolescentes dos EUA é flagrante. Em 2004, 89% deles usavam o correio eletrônico com frequência. Hoje, esse número caiu para 73%.

Enquanto isso, 74% dos usuários de 64 anos ou mais usam a ferramenta _é a atividade on-line mais popular entre eles.

Alguém já disse que o e-mail, hoje, está para a Internet como carta esteve para a Web na ocasião de seu surgimento. Além disso, supõe textos mais longos. As redes sociais e suas conexões diretas estariam, de certa forma, canibalizando aquele que já foi um símbolo da rede.

Phelps, maconha e o plantão de domingo

Michael Phelps na foto polêmica, com o 'bong', cachimbo de vidro

Michael Phelps na foto polêmica, com o 'bong', cachimbo de vidro

A divulgação de um foto de Michael Phelps (maior campeão olímpico da história) usando um “bong”, o cachimbo de vidro que é utilizado para fumar, entre outras coisas, maconha, agitou o plantão deste domingo nas redações.

Primeiro porque a imagem em si não bastava: Phelps _aliás estrela de duas campanhas antidrogas, em seu país e no exterior_ poderia simplesmente estar fumando tabaco. Aliás dois, senão o primeiro: não dá para cravar, olhando a foto, que se trata do cara. (ATUALIZAÇÃO: na verdade, há um jeito. O relógio Ômega que o nadador usa no pulso esquerdo é exclusivo. Só ele tem. Mas só fanáticos saberiam isso.)

A reação do nadador à matéria do tabloide News of the World (e tabloides são tabloides, nunca se esqueça) deu a certeza de que a história era quente e que valeria replicá-la. Sem usar a palavra “maconha”, Phelps emitiu nota oficial (por sinal, enviada com exclusividade para a agência Associated Press, algo a se investigar) desculpando-se por seu comportamento.

Houve um debate na “minha” redação: ora, se estivesse fumando tabaco, era preciso se desculpar?

E daí que maconha foi parar no título.

Outra coisa bem curiosa e de bastidor da profissão, esta na matéria original: a informação de que Clifford Bloxham, porta-voz da empresa que gerencia a carreira do supercampeão, teria oferecido ao tabloide “condições muito vantajosas” em troca da não-publicação da foto.

Quais? Ter Phelps como colunista exclusivo por três anos, contar com a presença dele em eventos do jornal e, mais, eventualmente até lucrar com anúncios dos patrocinadores do atleta.

Você cederia?

ATUALIZAÇÃO: Leia as notícias mais recentes sobre Michael Phelps