Arquivo do mês: fevereiro 2009

A balela dos micropagamentos

Está ótima a discussão iniciada por Clay Shirky (autor do indispensável “Here Comes Everybody“) sobre a proposta de micropagamentos para salvar o jornalismo impresso _grosso modo, se você vai imprimir um conteúdo, pague US$ 0,50; se for ler na tela, US$ 0,20, e assim por diante.

 É incrível, apesar de a Internet ter um passado tão recente, as pessoas não lembrarem que esse modelo já foi usado (e reprovado) nos primórdios.

 Além da indisposição natural do internauta a não ser taxado pelo que sempre recebeu de graça, esconder seu conteúdo atrás de um paredão pago significa, também, sua morte on-line (fora das máquinas de busca, você não é indexado ou encontrado). 

É o que nos relembra, agora, Shirky.

Um uso para o microblog

Tudo, menos "o que eu estou fazendo agora"

Tudo, menos "o que eu estou fazendo agora"

A culpa é da assessoria

A inclemência da indústria jornalística empurrou milhares de coleguinhas rumo às assessorias de imprensa, onde _costuma-se dizer nos bastidores da profissão_, é bem mais fácil trabalhar. Há os momentos de pressão e hora extra, claro. Mas, no geral, navega-se por um mar de rosas.

Muitas vezes me perguntam o que eu acho. É, sobre o trabalho em assessoria de imprensa. Eu acho que, se tivesse de contratar um profissional para exercer tarefa do tipo, escolheria um relações públicas com alguma noção em jornalismo. É esse o perfil básico, creio.

O Comunique-se mostrou um blog que tenta desvendar um pouco esse mundo. E o Novo em Folha também debate o assunto.

Newsweek admite que perdeu a relevância

A reformulação da revista semanal americana Newsweek, anunciada em reportagem do New York Times, vai totalmente ao encontro do que vimos falando sobre a nova posição do jornalismo impresso na era da alta tecnologia.

Jornal (e revista) não são mais produto de massa. Ponto.

Sabendo disso, a Newsweek agora quer ser lida por uma audiência menor, mas muito mais qualificada e influente. Portanto, a fórmula agora será priozar não o relato dos acontecimentos da semana, mas comentá-los e analisá-los por meio de artigos e contextualização.

É um caminho para uma publicação que viu perder, nos últimos anos, metade de sua circulação e assinantes.

Brincando de fazer jornal

O bilionário russo Alexander Lebedev, que acaba de comprar o falido jornal britânico London Evening Standard, disse que espera perdas de 30 milhões de libras (cerca de R$ 115 milhões) no primeiro ano da operação. E isso que ele declara ter ficado “1 bilhão de euros mais pobre” com a crise mundial.

Lebedev, que no horário comercial é filhinho de papai, disse que a aquisição tem um motivo nobre. “É uma ação de serviço público”.

Quem conta a história é Roy Greenslade, do Guardian.

Quem pode ser jornalista multimídia?

Mais uma minientrevista (na outra, o criticado foi o entrevistador…). Desta vez para o Curso Abril de Jornalismo. E tem tudo a ver com nossas conversas aqui no Webmanário.

Hoje, todo mundo fala do jornalista multimídia. Você acha que esse profissional é aquele que sabe produzir conteúdo para todas as plataformas? É essencial que o profissional saiba escrever para um jornal/ revista e ao mesmo tempo tirar foto, filmar, editar e colocar na rede?

Primeiro, não acho essencial. O jornalismo, e especialmente o bom jornalismo, é uma conjunção de perfis e habilidades específicas. A soma de todo esse conhecimento é que dá, ao produto final, uma cara tão plural e abrangente. Eu preciso, na minha equipe, daquele cara reflexivo, que questiona tudo, que tem sacadas e filosofa sobre o noticiário, ótimo texto, mas por isso mesmo demorado. Ao mesmo tempo, quero também o faz-tudo, que está on-line em todas as frentes, não tem medo de manual de instruções, instala programas, enfim, faz a roda girar dentro daquela caixa que tem tudo o que a gente precisa pra fazer jornalismo multimídia hoje: o computador.

Eu costumo dizer, para quem estuda jornalismo ou mesmo para quem já é foca, que quem tiver habilidade para fotografar, gravar áudio, filmar, narrar ao vivo, tuitar, enfim, tiver condições de abraçar todas essas mídias ao mesmo tempo, tem obrigação de fazê-lo. É muito pessoal: para alguns repórteres, usar uma máquina fotográfica (mesmo as mais simples) é um mistério. E fazer vídeos? As pessoas logo imaginam aquela câmera enorme, uma montanha de equipamento. Nada disso: estamos falando de habilidades específicas que estão dentro do espectro dos novos produtos portáteis (notadamente, notebooks e celulares), que facilitam a transmissão de dados e, ao mesmo tempo, não são (literalmente) um fardo para se carregar.

Agora, o que não dá para admitir é o autismo on-line, como as redações “de papel” ainda estão forradas de gente. Uma coisa é não ter habilidade para tocar vários empreendimentos ao mesmo tempo sem prejudicar o mais importante deles (a apuração). Ignorá-los e relativizá-los, porém, é o erro mais grave que um jornalista pode cometer hoje.

Você começou em um jornal impresso (a Folha da Tarde, em 1990), e também foi um dos primeiros jornalistas a gerar conteúdo para celulares. O jornalista hoje tem que ter mais habilidades?

A questão das novas habilidades tem tudo a ver com a ampliação das oportunidades de trabalho.

Você citou o conteúdo para celular, então falarei um pouco dele, por que de fato é um ótimo exemplo: foi uma empreitada, em 2001, na qual por meio de uma parceria com a BCP assinantes de serviços noticiosos da operadora receberam flashes da cobertura do jogo Uruguai x Brasil, pelas eliminatórias à Copa de 2002.

Foi algo muito novo e surpreendente. Era a estreia de Luiz Felipe Scolari no comando da seleção brasileira e eu estava lá, em Montevidéu, alimentando (via e-mail) um feed que retransmitia as pequenas notas em formato de torpedo aos usuários.

Além disso, cobri o jogo com matérias para jornais e flashes para sites (as parcerias foram definidas antes de eu viajar, num típico esquema stringer dos tempos de hoje) e fiz áudios para emissoras de rádio.

Naquela cobertura, só não fotografei e filmei (a demora para transferência deste tipo de arquivo naqueles tempos, ainda sem banda larga, talvez me absolva…).

Resumo da ópera: mais habilidades (e capacidade de dar conta delas, nunca se esqueça disso, não dá para fazer um monte de coisas, uma pior do que a outra) significaram também mais contratos e mais trabalho. Começou puramente como uma questão de sobrevivência (eu estava desempregado e busquei alternativas), mas que felizmente adotei como estratégia profissional.

O recado que fica dessa experiência: quanto mais coisas soubermos fazer no exercício da profissão, melhor informaremos o nosso cliente. Usuário, leitor, o que seja. Uma matéria sobre uma música, na Web, sem a música lá dentro simplesmente não cumpriu seu papel. E publicar um áudio é tão simples que, quando você descobre, fica com raiva por ter temido aquilo.

O campo para o jornalismo só tende a crescer, especialmente por causa da participação do público e do excesso de opções informativas. Contar com pessoas treinadas em hierarquização, filtragem e edição de fatos será uma condição que ninguém (ou quase, vai) abrirá mão nas próximas décadas.

Você pode citar 3 ou mais características fundamentais para um bom jornalista?

1) Esqueça o autismo digital. As ferramentas on-line estão aí, prontas para ajudar a agilizar o seu trabalho e sua missão (informar bem e o quanto antes). Várias outras surgirão, é inexorável. Uma coisa é o que dizem para você que a ferramenta faz. A outra, mais importante, é a utilidade que você dará a ela.
2) Não tenha medo da tecnologia. Pelo contrário, ela é nossa amiga e, mais ainda, do seu cliente, que deixou de ser espectador para ser participante.
3) Entenda o jornalismo como uma conversação e um processo tocado por várias pessoas: sim, o seu público. Crie comunidades em torno deles. Participe ativamente das redes sociais onde se debatem os assuntos de suas reportagens. Enfim, dialogue.

Mais propostas para salvar o jornalismo impresso

Cresce o movimento, especialmente nos Estados Unidos (onde o jornal está pela hora da morte), por uma mudança radical no modelo de negócios para tentar a salvar a indústria. É sinal de que chegou-se ao fundo do poço.

 Agora é a vez da prestigiosa Time (ela também com a circulação a despencar a olhos vistos) sugerir uma política de micropagamentos por conteúdo premium, o que não é exatamente uma ideia original, mas pouco colocada em prática.

Enquanto isso, engatinham _e com experiências quase marginais_ os testes de jornalismo financiado nos EUA. Ao mesmo tempo, já há quem resista na rede (e não em papel, que tem um custo exponencialmente superior) com base em doações de seus usuários.

A conversa desemboca naturalmente na transformação das empresas jornalísticas em entidades sem fins lucrativos, o que as capacitaria a receber verbas governamentais e doações de instituições como fundações _exatamente como funcionam as universidades na América.

Esse debate vai longe. E esbarra

A morte de Fidel: a matéria de gaveta mais célebre de Miami

Não são apenas fogos de artíficio, armazenados por ansiosos exilados cubanos, que estão cuidadosamente guardados em Miami. O obituário de Fidel Castro também.

É o que revela um dos mais experientes editores do jornal The Miami Herald, Manny Garcia. “Aqui no jornal, Fidel Castro equivale a uma pedra no rim: uma dor constante que parece nunca acabar, e que você reza para ir embora”, relata.

Outro editor do jornal, Tom Fiedler, diz que os planos para a cobertura da morte do líder da Revolução Cubana, de 82 anos, remontam à década de 90 e “são mais detalhados do que o plano americano para a invasão do Iraque”.

Não é só lá. Todo jornal minimamente planejado tem pelo menos um caderno especial já pronto sobre a vida e a obra (contestadas, ambas) de Castro. É assim com todas as personalidades relevantes cuja morte não seria exatamente uma surpresa.

É, talvez, o aspecto da profissão que mais choque os estudantes de jornalismo. “Como assim, você torce para alguém morrer?”

Não é torcer, mas estar preparado _planejamento é tudo para o sucesso de uma cobertura jornalística (só não digo que é condição sine qua non porque já participei de coberturas catastróficas do ponto de vista organizacional que, no final das contas, e por vários outros elementos, acabaram dando certo).

Lembrei de dois casos em que o “planejamento” acabou sendo revelado, inadvertidamente, aos leitores: o caso do UOL, que “matou” o ex-governador Mário Covas dois anos antes da hora, e o recente vacilo da Bloomberg, que colocou no ar por instantes o obituário de Steve Jobs, da Apple.

São as agruras do jornalismo.

O site da Casa Branca dissecado

A Smashing Magazine fez uma excelente análise do novo site da Casa Branca, cujo principal morador agora se chama Barack Obama.

O raio-x aqui é absolutamento técnico e de usabilidade (sobre a gestão on-line de Obama, eu mesmo já tinha dado alguns pitacos aqui antes, e voltarei à carga mais para diante, quando alguns processos já estiverem consolidados).

Via Contra a Clicagem Burra.

Passado e presente dos jornais

Jill Lepore faz, na The New Yorker, uma excelente reconstituição da primeira morte dos jornais americanos, em 1765, ainda antes da independência.

A questão ali era uma pesada taxa imposta pela metrópole (o Reino Unido) _a Lei do Selo, que inviabilizou o negócio jornal impresso.

Hoje, os jornais estão à beira da falência de novo (nos EUA e alguns países da Europa, que fique claro: em nações emergentes como o Brasil, onde ainda há demanda reprimida, eles estão livres por ora da hecatombe).

A ponto de emergir como uma possível salvação a transformação das empresas de comunicação em entidades sem fins lucrativos, organizações que se candidatariam legalmente a receber doações de instituições públicas e privadas, além de oferecer vantagens fiscais para os manutedores. Loucura?

Há um artigo na área colaborativa do The New York Times que discorre sobre o tema. E outras pessoas, na Europa, repercutindo e avaliando.

Será que é isso, ou o obituário do seu jornal preferido na capa?

Aliás, Bill Keller, diretor-executivo do The New York Times, fala bastante sobre o futuro dos jornais em resposta a perguntas de leitores.