Arquivo do mês: fevereiro 2009

O wikijornalismo e a transparência on-line

Jeff Bercovici levanta, no Portfolio.com, um tema bacana e que está relegado ao último plano no Brasil (pouca gente se debruçou sobre ele, essa é a verdade): o wikijornalismo.

Duvido que Bercovici saiba do que se trata, mas seu clamor por maior transparência no jornalismo on-line _especificamente para que sites e portais exibam a seus leitores todo o histórico de uma reportagem publicada na Web, com suas atualizações e correções_ seria resolvido exatamente com isso, um wiki.

Em suma, um texto em código aberto passível de ser atualizado por qualquer um, e cujas alterações ficam registradas usuário após usuário. É o modelo que vemos, por exemplo, na Wikipedia.

Um cara que estudou esse negócio a fundo é o professor inglês Paul Bradshaw, que chegou a imaginar a proposta substituindo, por exemplo, a blogagem. Não prosperou, mas o debate ainda está de pé.

Só um wiki poderia atender a contento à proposta de Bercovici. É como comenta um editor do jornal inglês The Times no texto: “nossas páginas se transformariam numa enorme confusão”. Sem dúvida: imagine palavras riscadas ou parágrafos inteiros com indicações de alterações, títulos duplicados porque foram alterados… enfim: inviável.

Colaboraria com a transparência do jornalismo on-line conhecer que mudanças um texto na Web passou ao longo do dia? Provavelmente. Isso, entretanto, não exclui a necessidade de correções (e ainda são poucos os sites relevantes que possuem uma lista de notícias só para abrigá-las _isso sim é falta de transparência, não?)

Agora, e para não perdermos a discussão de vista, cito o wikijornalismo não como um espaço de convivência pro-am, ou seja, entre jornalistas profissionais e cidadãos.

Não vejo, ao menos no Brasil, maturidade para este modelo no momento. Logo, esse nosso “wiki transparente” seria capenga e teria de ter restrições de acesso. Mas seria uma opção a uma página incompreensível e cheia de rabiscos.

ATUALIZAÇÃO: Protegido pelo muro do conteúdo pago, o texto de Jeff Bercovici pode ser acessado via máquinas de busca.

Nove mandamentos do jornalismo ruim

Gabriel Silva publicou no popular Blasfémias (talvez o blog mais conhecido e acessado de Portugal) os nove mandamentos do jornalismo ruim na Web. Deixei passar uns dias, mas a lista está aqui.

São observações bastante válidas (e todas inspiradas em histórias reais).

Só discordo de uma, a última: o teaser é opção legítima para jornais que ainda se escondem por trás do paredão do conteúdo pago. Talvez o mandamento devesse ser “protegerás todo o teu conteúdo sob acesso pago, escondendo-te das máquinas de busca e, consequentemente, dos usuários”…

Divirta-se.

1) Não linkarás

2) Só citarás blogs de pessoas conhecidas off-line

3) Em caso de sucesso de alguma iniciativa sua, dirás “esta é a primeira vez que…”

4) Ao publicar uma notícia com mais de três dias dirás sempre “ontem”

5) Todo o noticiário internacional nunca terá fontes

6) Tentará a todo custo impedir que seus produtos multimídia sejam citados ou republicados

7) No horário de maior audiência, colocarás um pop-up gigantesco que impeça a visualização da página

8 ) Você divulga o e-mail do webmaster, seguido de um número de fax, para seus leitores entrarem em contato

9) Num texto mais longo, publique só o primeiro parágrafo seguido de “Leia mais na edição impressa”

Sobre a reinvenção do jornal

O debate suscitado pelo post anterior, que falava sobre a sustentabilidade da negócio jornalismo impresso, justifica uma continuação. Afinal, o que estamos buscando são soluções que ajudem a sustentar (por quanto tempo não sabemos) a prática de apresentar notícias em papel, hoje ameaçada devido a seu alto custo.

A Carol Rocha, por exemplo, não consegue imaginar um mundo sem jornais. Esta é exatamente a tese de Gary Kamya, que defende com unhas e dentes uma suposta expertise dos jornalistas profissionais, embora reconheça o poder de mobilização do crowdsourcing e as coisas que só um amador é capaz de fazer por você.

Daí o Jorge Cordeiro, companheiro velho de guerra das redações, tocou no aspecto limitador do meio papel, algo que se limita a si próprio. Enquanto na plataforma on-line temos qualquer tipo de opção (basta pensar que é um ambiente que abriga todas as outras mídias juntas), ainda não estabelecemos uma conexão intelectual de produção de conteúdo voltada para o uso dessas ferramentas. Pensa-se em papel, e só. Isso sim é ainda mais limitador.

Concluímos que o jornal precisa se reiventar. Mas como? Não por acaso o projeto gráfico vigente na Folha de S.Paulo, implementado em 2006, possui colunas abrindo páginas. Está no receituário de “reinvenção” do impresso valorizar articulistas e opinião como um diferencial da Web, meio em que o hard e o breaking news parecem se encaixar tão bem.

Uma questão crucial para o jornal mudar de fase é o “aconteceu ontem”. Libertar-se ou não desta amarra é um dilema para um produto que, afinal de contas, é um documento histórico do dia que passou. É fato, entretanto, que conviver com notícias lidas à exaustão 24 horas antes é para lá de desagradável.

Agora, eu coloco o convergência como maior entrave. Encimesmado, o jornal não pode ir muito longe. Confeccionado com o olhar multiplataforma associado à sua tradição de investigação e busca pela notícia de primeira mão, o jornalismo impresso ainda tem vários tiros para dar.

Por uma imprensa sustentável

Dois textos debatem hoje o assunto do momento: a sustentabilidade da indústria jornalística.

Na Salon, Gary Kamiya dá números do desastre ( o prejuízo dos jornais americanos foi o maior da história em 2008 ) mas lembra que, na era da publicação pessoal, as notícias estão circulando como nunca.

O problema, com o fim da imprensa “formal”, é que imediatamente a blogosfera e o jornalismo no ciberespaço acabariam _ou eles não reproduzem e vivem a reboque dos veículos tradicionais?

No Huffington Post, Jack Myers é mais auspicioso: ele oferece a possibilidade de doar dinheiro para publicações que estejam, de alguma forma, trabalhando e compartilhando boas idéias e modelos de negócios que ajudem a perpetuar o negócio.

Afinal, a crise não é exatamente dos jornais, mas do jornalismo. E, sem ele, a democracia perde um pilar importante.

Agora me diz: assessoria de imprensa é jornalismo?

Os planos da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para a agência CDN, ganhadora de licitação da conta de assessoria de comunicação do órgão, evidenciam claramente como o trabalho tem tudo a ver com relações públicas _e quase nada de afinidade com jornalismo.

É uma discussão que venho travando aqui (e em outras frentes) há tempos, não para menosprezar o trabalho das assessorias, mas sim para colocá-las em seu devido lugar. É trabalho de relações públicas e acabou.

No caso da Secom, as palavras de seu subchefe-executivo, Ottoni Fernandes Júnior, não dão margem a dúvida. O que a secretaria pretende é que a CDN mostre ao mundo “um Brasil verdadeiro, “um país com economia forte, com as contas em ordem, um país continental, democrático, institucionalizado e preocupado com a inclusão social”.

“Vamos mostrar que neste momento o Brasil está bem preparado para enfrentar uma crise externa, porque tomou medidas corretivas que também deverão ser tomadas por países desenvolvidos. O Brasil está com a casa em ordem. Enquanto os outros têm que tomar medidas conjunturais, nós já o fizemos. É isso que queremos mostrar, que já fizemos a lição de casa”, diz Ottoni.

Alguma dúvida sobre a natureza do trabalho? É jornalismo?

ATUALIZAÇÃO: A Carol Rocha mandou, aí na caixa de comentários, um link com um texto bem bacana que fala precisamente sobre o assunto. Vale a pena ler. No Escrevinhamentos, Victor Barone dialoga com Ricardo Kotscho e chega a conclusões parecidas com as minhas.

Em bom português

Para quem não leu no original, o Estado de S.Paulo de ontem traduziu (e publicou em duas páginas) o artigo de Walter Isaacson defendendo o micropagamento como uma solução para tirar o jornalismo impresso (o americano, diga-se) do fundo do poço.

Sem recorrer à tradução do texto, a Folha de S.Paulo também debateu o assunto no final de semana (para assinantes do jornal ou do UOL).

Você já sabe o que eu e outras pessoas pensamos, mas como o debate chegou ao Brasil, veremos o que de novo acontece nesta semana.

Caso Paula: enxurrada de correções à vista

A incrível história da brasileira Paula Oliveira, que disse ter sido agredida por skinheads numa estação de metrô de Zurique, só não é mais incrível do que a sucessão de correções que os jornais brasileiros (seja em papel ou on-line) serão obrigados a fazer caso se confirme a inacreditável hipótese de autoflagelo levantada pela polícia suíça.

Não é preciso ir longe para observar que a imprensa brasileira assumiu como se fossem dela as informações de Paula. Foi ela quem disse estar grávida de gêmeos e ter perdido os bebês no ataque (isso, segundo as autoridades suíça, já é fato: ela não estava grávida). Apenas isso, a falsa gravidez, já poderia ser objeto de correção. Agora, e se nem mesmo o ataque for real?

Como seria o título “Brasileira grávida de gêmeos é agredida na Suíça e perde bebês” sem assumir as informações dadas pela personagem da notícia? “Brasileira acusa skinheads de agressão na Suíça”. Claro, tirar a gravidez, este componente emocional, do título seria um erro. Afinal, ela sabia o que estava dizendo, não? Eu, fechando as matérias desse caso, teria ido pelo mesmo caminho. No calor dos acontecimentos, faria tudo igual

Mas aqui sou engenheiro de obra pronta: o importante do caso é a reflexão que ele sugere. Como bem lembrou Leopoldo Godoy, “as pessoas mentem”.

Como saber isso?

Ainda que no caso de Paula não fique comprovado que de fato aconteceu (apesar da informação sobre a falsa gravidez), fica a lembrança de atribuir, sempre, a informação. Aliás, o jornalismo na Internet faz muito isso _e é bastante criticado, diga-se de passagem.

Sim, a atribuição tem a desagradável função de lembrar ao leitor que não somos nós, os jornalistas, que asseguramos a veracidade da informação. É chato, por que de certa forma revela ausência de fontes e incapacidade para se confirmar um fato.

Mas, como mostram algumas situações, indispensável para escapar de uma grande patinada.

Leia notícias atualizadas sobre o caso

A cara da crise

Na foto vencedora, de Anthony Suau, um policial checa, após despejo nos EUA, se os moradores efetivamente deixaram a residência

Na foto vencedora, de Anthony Suau, um policial checa, após despejo nos EUA, se os moradores efetivamente deixaram a residência

Saíram os vencedores do World Press Photo 2008, o Oscar do fotojornalismo. A imagem ganhadora é um retrato da crise econômica que assusta o mundo.

Confira todos os vencedores.

Ainda os micropagamentos: você doaria dinheiro ao seu jornal?

Eu tentei, mas eu não consigo: nesta semana está absolutamente impossível fugir do assunto micropagamentos, a surreal proposta de uma coisa já utilizada na Web (e reprovada) agora ressuscitada para, dizem os seus defensores, salvar os jornais impressos.

Steve Outing pensa exatamente o mesmo e escreveu, na Editor&Publisher, um texto bacana nos lembrando, de novo, que cobrar do internauta “é contra a natureza da Internet e não funcionou” quando testado. Em vez de salvar, essa política vai terminar de pregar o caixão dos morubindos impressos.

Cobrar por conteúdo é uma insanidade. A taxação sobre produtos e ferramentas especiais e/ou personalizadas, aí sim, não tem contraindicação. Mas, no momento, o que se quer com o microcropagamento é voltar a um estado de coisas que foi rechaçada no começo da rede.

Em vez disso, Outing cita o exemplo do Kachingle, um arrecadador de doações para sites _aliás outro modelo de negócios que está sendo seriamente discutido nos EUA.

Você doaria dinheiro para o seu jornal não morrer?

Quem precisa ser salvo: o jornal ou o jornalismo?

A busca “save” + “journalism” + “newspapers” é o hype da nossa profissão. A mídia repercute o apelo de Walter Isaacson pela salvação dos jornais americanos publicado na Time e também no Huffington Post, belíssimo exemplo de mídia independente nascida na Internet e que ajudou a confrontar o monopólio da imprensa em papel (note a “sutil” diferença entre os títulos do artigo numa e noutra publicação).

O próprio HuffPo, em outro texto bastante lúcido, pontua corretamente que quem precisa ser salvo são os jornais, não o jornalismo. O advento da tecnologia e novas mídias, pelo contrário, só trouxe benefícios à função de apurar/filtrar/difundir notícias.

De novo, e para não perdermos o foco, esse cenário de guerra todo diz respeito, no momento, a Estados Unidos e alguns países europeus, notadamente os mais desenvolvidos. Em Londres, o Times acaba de promover um passaralho. Na Espanha, jornais gratuitos (um sucesso nas ruas, mas um fracasso comercial) fecham as portas.

No Brasil (assim como em outros países emergentes), ainda há bastante espaço para o jornalismo impresso crescer. Milhões de pessoas atravessaram há pouco a linha da pobreza e, certamente, ainda haverá mercado (arrisco a dizer por décadas) para esse tipo de produto.

É por isso, talvez, que por aqui a discussão sobre o fim do jornal impresso ainda seja tão incipiente. Nossos veículos se escoram em pequenas vitórias _como uma desaceleração menor do que a esperada no faturamento, por exemplo_ para justificar o adiamento do debate.