Arquivo do mês: janeiro 2009

O blog que não é blog

Afinal, Barack Obama começou bem ou mal sua gestão on-line?

A questão é controversa. Dave Winer, o primeiro blogueiro de que se tem notícia, reparou logo de cara que o “blog” do site da Casa Branca se apropriou indevidamente do nome: não leva o leitor a lugar algum, não coleciona coisas bacanas, não indica outros sites e, reparei agora, nem sequer é publicado na ordem cronológica inversa.

Desta forma, serve apenas para amontoar releases.

Agora há pouco o novo presidente dos EUA repetiu “por precaução” o juramento à constituição americana porque houve uma pequena gafe no juramento original, feito ontem em público, e que emocionou o mundo.

Por um acaso a informação foi distribuída em algum dos canais interativos de Obama? Não. Aliás, nem área de notícias há no site oficial da presidência. Cadê a tal da comunicação imediata tão apregoada?

Jeff Jarvis, professor da Universidade de Nova York, acha que ainda é cedo para avaliar o trabalho da equipe de Obama na web. Eu também, mas isso significa que caracterizar o recém-empossado governo como um exemplo no uso das novas tecnologias é avançar bastante o sinal.

Funcionou na campanha mas, como já falei outras vezes, há vários outros pontos ainda obscuros.

El Pais anuncia “refundação” e unifica redações

O El Pais, jornal espanhol com só 33 anos de vida e uma imensa influência (além de vanguardista da migração para a Internet), faz barulho para anunciar sua “refundação”.

Basicamente é aquele velho mantra: as redações papel e on-line foram unificadas, uma resposta ao “fim da indústria dos jornais”, como pontua o texto que avisa os leitores sobre a mudança.

Suzana Barbosa faz um bom resumo da mudança (que na prática só entra em vigor em março) no Blog do Gjol.

Principal executivo da empresa, Juan Luis Cebrián reuniu a redação e, entre outras coisas, previu a morte do jornal “como o conhecemos” para daqui a 15 anos. Mais: disse que o modelo de negócios dos jornais impressos é “antiquado, obsoleto e esclerosado”.

O mais grave do discurso: “isto é um plano de sobrevivência”.

Curioso ver sites especializados na cobertura de mídia tratando a coisa como “El Pais obriga seus jornalistas de papel e on-line a unificarem-se num única redação“. Ué, trata-se de uma condenação? De uma pena? Ou de um caminho natural?

Agora, de nada adianta juntar as redações e, como vi em experiências em grandes jornais do Brasil, deixar o povo de on-line num lado da bancada e os do papel na outra. Quero saber exatamente até que ponto esse discurso sairá do papel e se transformará, de fato, num case de convergência. Digo que ainda não há exemplo, ao menos bem-acabado, no mundo.

Um dia histórico

A foto oficial do 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a primeira feita numa câmera digital

A foto oficial do 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a primeira feita numa câmera digital

Difícil falar de outro assunto hoje, quando Barack Obama se tornará o 44º presidente dos Estados Unidos.

E seus canais de interação on-line, que andavam abandonados, voltaram com a corda toda.

O microblog oficial da posse já está a toda, dando inclusive dicas de trânsito para quem está se mobilizando em Washington.

Há ainda a opção de enviar imagens para o álbum oficial da posse e também acompanhar, via feed, notícias no Tumblr, ou o noticiário geral no Alltop.

Outra opção é acompanhar o que as pessoas estão dizendo no Twitter e, também, na blogosfera. Para ver ao vivo pela TV, a dica é o Justin.tv.

É um dia para entrar na história.

O teto da igreja caiu, mas onde estava o jornalista cidadão que não viu?

Há três dias falávamos aqui sobre a agilidade do cidadão jornalista (e até sua disputa pelo furo, como se viu no caso do avião que pousou no rio Hudson, em Nova York), e então neste domingo cai o teto de uma igreja evangélica em área densamente povoada (e cercada de prédios), em São Paulo, e a colaboração dos usuários é próxima do zero?

Como reagir a isso?

Enquanto escrevo (são 2h18 da madrugada desta segunda), há um mísero registro fotográfico no Flickr _que nem sequer evidencia, devido ao ângulo, a extensão da tragédia_, enquanto mesmo sob apelos, os guetos de jornalismo participativo dos grandes portais (Eu-Repórter, Minha Notícia, VC no G1 e Vc Repórter) não têm material algum produzido pelo usuário para exibir.

Nos sites de microblog, ao menos, a primeira menção ao incidente surgiu antes que Paulo Henrique Amorim desse a notícia de última hora na TV Record _que foi, até onde sei, quem deu o furo na grande mídia.

No You Tube, maior site de compartilhamento de vídeos, aparentemente há um único arquivo original, afora os tradicionais repliques dos canais do mainstream.

Nesta segunda voltarei ao assunto atualizando as coisa. Se você souber de algo que passou batido nessa análise inicial, avise. Quem sabe limpamos a barra do jornalismo cidadão tupiniquim? Por ora, baita fiasco…

ATUALIZAÇÃO: Voltei, conforme prometido. Tarde, mas voltei. E não há nada a atualizar. De fato, a colaboração no caso do desabamento do teto da sede da Igreja Renascer não teve nenhum episódio novo, nem nas plataformas independentes nem nos portais que oferecem o “gueto colaborativo”. De prático, sobrou a troca de impressões, na caixa de comentários, com Ana Brambilla, que acrescentou ingredientes saborosos para tentar entender essa ausência de jornalismo entre os cidadãos que presenciaram o fato.

A primeira indefinição do novo presidente

Algumas coisas já podem ser ditas sobre o plano da gestão Barack Obama para o diálogo e a convergência de pessoas on-line _tática que se mostrou decisiva no pleito que conduziu o democrata ao cargo de presidente dos Estados Unidos, mas que por ora pareceu ser só isso: uma estratégia de campanha, não de governo . A posse, aliás, é nesta terça.

Este miniartigo atualiza e complementa o que eu escrevi há dez dias.

Falta de padrão, deslizes na condução de redes sociais consolidadas e bem-sucedidas e, o pior de tudo, um discurso vazio sobre como serão financiados, administrados, hierarquizados e priorizados os canais de conectividade na Web que transformaram a campanha de Obama num exemplo de multiplicação em tempos de altíssima tecnologia _e acesso à ela.

Vamos à falta de padrão: há um canal no Flickr que trata do gabinete de transição. Desatualizado, por sinal. Enquanto isso, surgiu outro, apenas sobre as cerimônias de posse. Eles não se falam, não se linkam. Claro desvio de condução de grupo em mídia social.

E o microblog? Depois que registrei que a última atualização ocorreu em 5 de novembro (um dia após a votação), eis que surgiu outra ontem, mas tirando as pessoas do canal ao sugerir que acompanhem a página oficial da posse. Onde, logicamente, há um grande destaque para o botão “doe dinheiro agora“.

Há, ainda um canal de microblog atualizado desde 28 de dezembro sem nenhuma publicidade nas outras palataformas on-line por onde o democrata desfila.

A pá de cal foi o último discurso de Obama postado no You Tube (hábito hebdomadário do futuro mandatário). Ele choveu no molhado ao ressaltar a importância da participação das pessoas. Foi um discurso quase religioso que, é evidente, recebeu crítica muito bem fundamentada.

Afinal, quais são as propostas concretas para o uso da tecnologia no 44º mandato presidencial dos Estados Unidos?

Amador, jornalista cidadão está na mira do Fisco

O jornalista cidadão (aquela testemunha ocular que, por estar no lugar certo e na hora certa, registra alguma notícia relevante) terá de pagar imposto nos Estados Unidos. O entendimento é do Internal Revenue Service, a Receita Federal deles.

Justo o cidadão repórter, que normalmente não recebe nada ou muito pouco por sua colaboração.

Há uma controvérsia na decisão: juristas entendem que quem deveria pagar a taxa _prevista a partir do montante de US$ 12 mil_ são as empresas noticiosas que se beneficiam do conteúdo produzido pelo usuário.

Dan Gillmor, um dos pioneiros a detectar a incrível revolução que a era da publicação pessoal trouxe ao jornalismo tradicional, acha que a taxação pode representar um significativo atraso na evolução do fenômeno.

Agora, uma pitada: se há algum jornalista cidadão que ganhou mais de US$ 12 mil num ano com colaborações, sempre mal pagas e desconsideradas, ele é uma exceção. Talvez tenha conseguido o valor numa única tacada, ao flagar a enésima vez que Britney Spears mostrou a calcinha (ou a ausência dela).

A primeira foto, na verdade, era a segunda…

A aeronave pousada no Hudson, antes da chegada de balsas que ajudaram no resgate _de onde jornalista cidadão fez a segunda foto do incidente em Nova York

A aeronave pousada no Hudson, antes da chegada de balsas que ajudaram no resgate _de onde jornalista cidadão fez a segunda foto do incidente em Nova York

Nada como um incidente urbano (ou seja, com várias testemunhas) para recolocar o jornalismo cidadão e a comunicação em rede sob os holofotes. Desta vez, foi por muito pouco: o pouso forçado do avião em Nova York teve, talvez, uma única incidência registrada por uma pessoa comum antes da chegada, em peso, da grande mídia.

Registrada não, corrijo: publicada on-line (no caso, numa página do Flickr). Parece-me óbvio que outras tantas pessoas focalizaram a cena, ocorrida em pleno rio Hudson, só na frente da Ilha de Manhattam, diante de centenas de prédios de escritórios e janelas forradas de curiosos munidos de celulares e câmeras digitais.

A maioria destes flagrantes, porém, não chegam à Web porque seus autores fracassam ao compartilhar o conteúdo. Sua colaboração para em obstáculos pessoais, técnicos e circunstanciais.

Quando surgiu a segunda foto pública do acidente (confundida por gente muito experiente na Web como a primeira), já existiam imagens de agências de notícias (a Associated Press capitaneando) e câmeras de TV a vivo transmitindo o resgate dos 150 passageiros, todos com vida _essa sim a grande notícia do quase desastre.

Claramente esse pouso bem-sucedido esteve no limiar de derrubar o paradigma que minha amiga Mindy McAdams tão bem decretou, com minha total concordância: o breaking news (a notícia de última hora) estará on-line, sempre, antes do rádio e da TV e será sempre coberto, inicialmente, por jornalistas não-profissionais.

Quase que essa afirmação cai. Por minutos (normalmente leva dezenas, e bota dezenas, deles).

Nosso velho conhecido, o jornalista português Alex Gamela montou uma linha do tempo do incidente do ponto de vista do Twitter, o site de microblog mais acessado do mundo. Ali, 140 caracteres bastam quando se preenche o espaço com links úteis. É a expansão da informação, algo que nossos sites noticiosos desconhecem por medo de levar o usuário alhures e nunca mais recuperá-lo _sendo que é exatamente a prestação desse serviço um dos mais potenciais agregadores de público.

Minha curiosidade, desta vez, foi notar amadores (nota: gente que não é jornalista) disputarem ombro a ombro um furo. A agilidade das pessoas está cada vez mais impressionante.

E quem deu a informação primeiro (ao menos em imagem publicada on-line, vamos especificar bem)? Esta foto, tirada antes que a chegasse a balsa de onde este aqui registrou o resgate dos passageiros.

Aliás, a própria linha do tempo de Gamela registra a aparição desta foto primeiro (por acaso, transmitida por mim).

O público que publica, mais uma vez, mostrou-se útil para a imprensa tradicional. Cabe a ela colocar essa gente de vez para dentro do noticiário.

Em destaque, a nova ortografia

É uma vergonha, mas só agora, 15 dias depois, notei a arte pedagógica que o Diário de S.Paulo (registre-se: para nós mais velhos, o eterno Dipo) está publicando por ocasião da Nova Reforma Ortográfica (PDF). Notei não, Ricardo Viel e Carolina Araújo que me disseram.

No pé de matéria do Diário de S.Paulo, à direita, o box que esclarece a nova grafia de palavras

No pé de matéria do Diário de S.Paulo, à direita, o box que esclarece a nova grafia de palavras

O desenho não é original (a fórmula do hiperlink foi usada milhares de vezes), mas a iniciativa sim. É, possivelmente, a intervenção mais severa e visível de um veículo de imprensa na cobertura da recente com a mudança do vernáculo.

Mexe, inclusive, com a diagramação das páginas. Parece inibir, às vezes, mais ocorrências _como se os redatores estivessem escolhendo palavras (claro, imagine sua página cercada de hiperlinks por todos os lados).

Veja no detalhe: o verbete novo é realçado e leva a um pequeno quadro que, melhor editado, pode trazer outros exemplos semelhantes e ser ainda mais útil.

dipo_reforma_detalhe

Quanto aos meus recortes eletrônicos desta edição de ontem do Diário, só digo que quem não tem scanner caça com máquina digital…

Posse de Obama provoca corrida por jornal em papel

A posse de Barack Obama, nesta terça (e mais dois dias de festas), já está sendo anunciada como uma grande data para o jornalismo cidadão.

Quem trabalha incentivando a participação dos usuários está esfregando as mãos à espera de imagens (fotos e vídeos) exclusivas dos eventos que marcaram a ascensão do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Não é só isso: a data deverá marcar também um recorde na vendagem de jornais impressos, que andam há muito tempo em baixa no país.

Vários jornalões já preparam tiragens extras e também edições temporãs para dar conta da procura pelo jornal que, entendem muitos americanos, será histórico.

Quando Obama venceu a eleição, em novembro, faltou jornal nas bancas para atender aos interessados que, mais do que as notícias (muitas das quais já haviam lido na Web bem antes), queriam era guardar uma recordação.

Neste aspecto, o jornal em papel ainda não foi superado, né? Parece sempre que a coisa física, preto no branco, transmite uma sensação melhor para quem busca a noção histórica e contextual de eventos verdadeiramente relevantes.

Ver os fatos num papel, e não numa tela, ainda parecem reforçar sua importância.

Discussões para dar e vender

Tem duas discussões bacanas correndo soltas na rede e eu, que gosto de sempre meter a colher, não perdi a oportunidade.

No Novo em Folha, a Ana Estela relembra o caso da frila de O Globo, agora cobrindo o conflito no Oriente Médio, que postou barbaridades (eram suas opiniões pessoais) num blog próprio. Olha só que loucura.

Eu sempre falo uma coisa: tome cuidado com sua vida pregressa on-line. O jornalismo é uma atividade pública. Usar um site pessoal para tomar posições políticas, religiosas e até sobre futebol (sobre futebol, aliás, evite, sua vida pode virar um inferno) exige ter a consciência de que certamente haverá um ônus.

O meu, quando critico veículos jornalísticos aqui, pode significar entrar na lista negra deles, não?

Pelos comentários lá no Novo em Folha, o povo acha que tudo bem, que seria uma invasão tomar uma publicação pessoal como algo público. Eu acho ótimo ter opinião. Mas lembre-se: é provável que a sua fique eternizada na rede e crie, no mínimo, algum tipo de obstáculo ou reparo ao seu desempenho profissional.

Em outra frente, estamos debatendo no Libellus, da Ana Brambilla, o discurso no microblog.

O ponto de partida foi um post da Ana _quem mais conhece sobre jornalismo colaborativo no Brasil_ comentando o levantamento de que 35% dos usuários do Twitter (o site de microblog mais acessado) tem até dez “seguidores”.

A minha posição (por ora, a discussão prossegue): eu tendo a relacionar a baixa conectividade a outros usuários como reflexo da qualidade da micropostagem _ou à ausência dela.

Na medida em que o que vc posta é útil (isso em primeiro lugar), interessante (do ponto de vista intelectual) ou divertido (sim, há espaço para humor no microblog), a teia tende a crescer.

E você, o que é que acha?