Mais um texto disseca as experiências de jornalismo financiado nos Estados Unidos, mas não fala nem uma palavra sobre o possível conflito ético dos experimentos.
Digo possível porque a questão surgiu e me pareceu válida. Foi numa conversa com os atuais trainees do jornal Folha de S.Paulo. A simples menção de que havia pessoas pagando por reportagens suscitou um “gente, mas isso não pode, é matéria paga”.
Pois é. David Cohn e Leonard Witt também não pensaram nisso. São deles os dois projetos mais auspiciosos na área, como já contei aqui outro dia.
Apenas para recapitular: Dave comanda o Spot Us, projeto em que cidadãos da região metropolitana de San Francisco sugerem uma pauta e fazem uma vaquinha para pagar um jornalista e um editor/revisor para concretizar a reportagem.
Feita a matéria, Dave ainda batalha a venda dos direitos exclusivos para algum grande veículo. Se não rolar, paciência: o dinheiro do público, ao menos, já bancou os gastos e a remuneração do freelancers contratados.
Witt, criador do jornalismo representativo, pensou diferente: tem um jornalista trabalhando numa pequena comunidade de 17 mil moradores. A idéia é que o profissional funcione como uma espécie de policial do quarteirão, ou seja, conhecido e respeitado pela comunidade, a quem afinal dará voz por meio de reportagens. Também é remunerado pelos “pauteiros” _os leitores.
Jornalistas receberem dinheiro (ou outro tipo de contribuição) de leitores já é uma realidade nos Estados Unidos, e não apenas por causa dos projetos de Cohn e Witt. É comum autores de blogs, por exemplo, ganharem livros ou mesmo doações em espécie das pessoas que habitualmente acompanham seu trabalho.
Por aqui, o tema ainda é um tabu. Mas há quem, há tempos, recorra ao expediente, como Pedro Doria, dono de um dos melhores e mais acessados blogs do país.
Se as experiências prosperarem nos EUA, vamos ouvir falar muito mais disso nos próximos meses. Oportunidade para discutir se, afinal, o financiamento público ao exercício do jornalismo esbarra em algum preceito ético da profissão.
Não me parece que, no conceito geral, seja o caso.
Muito interessante. Quero ler mais sobre o tema. Alguma dica?
Victor,
sugiro que fiquemos de olho num alerta do tipo “crowdfunding journalism”. O tema ainda é muito recente…
abs
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